Rainha quer negociar com o governo
Líder dos sem-terra quer trocar o Pontal pelo Norte ou Nordeste e negociar a reforma agrária em nome do movimento

Arquivo FolhaPasse livreJosé Rainha: autorizado pela mulher, Diolinda, a ‘‘passar meses viajando’’ em defesa da reforma agráriaO líder do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) José Rainha Jr. diz que quer parar de comandar invasões de terra para se tornar o interlocutor dos que lutam pela reforma agrária com as autoridades. Dois meses depois de conseguir o título definitivo de um lote de terra no Pontal do Paranapanema (extremo-oeste de São Paulo), José Rainha Jr., 37 anos, vai se mudar para o Norte ou o Nordeste.
‘‘Minha proposta é trabalhar a reforma agrária na sociedade. Vou tentar abrir caminhos’’, disse Rainha em entrevista à Agência Folha. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Agência Folha - O sr. foi voto vencido, e o MST decidiu apoiar Lula. Agora, ao invadir prédios públicos, o MST é tachado de eleitoreiro. O sr. já temia isso?
José Rainha Jr. - A investida de FHC contra as ações dos sem-terra, de ter jogado para a questão eleitoral, é o discurso que ele iria usar mesmo. Uma forma de ele combater o MST é essa. Esse tipo de ação (invasão a prédio público) é feito desde que o movimento sem-terra existe, não é novidade. A novidade é que nós estamos organizados e mobilizados em 13 Estados. O governo pegou o ‘‘gancho’’ de o MST estar apoiando a candidatura Lula.
AF - O sr. considera FHC um adversário dos sem-terra?
Rainha - O FHC está mal assessorado. Os assessores colocam na cabeça dele que o MST não está querendo a reforma agrária, que estamos disputando o espaço dele. Isso é um equívoco, somos um movimento social. O presidente está nos tratando como violentos, baderneiros. Ele tem que saber que é o processo democrático, que é preciso enfrentar esses problemas.
AF - De que forma o MST vai auxiliar Lula?
Rainha - Já dissemos ao Lula que, se ele quiser ter uma candidatura de esquerda, de oposição, tem que resgatar o apoio do PT ao MST em lutas concretas. Antes do encontro nacional, eu dizia que o MST deveria continuar sua luta pela reforma agrária, sem se vincular a uma candidatura. O governo vai usar isso, e já está usando, dizendo que a nossa mobilização é para a candidatura Lula. Vai tirar proveito dessa posição. O governo vai jogar para derrotar o MST. Vai ser um jogo muito forte, que vamos enfrentar.
AF - Mas o governo já aceita negociar.
Rainha - O governo já voltou a dialogar, sempre dialogou. Mas não tem moral para nos chamar de invasores, de foras-da-lei. A meia dúzia de engravatados que dá sustentação a esse governo está metida na corrupção. Olha o Sérgio Naya, a compra de votos, os precatórios. Quando os grandes não têm moral para governar, os pequenos têm direito de desrespeitá-los. Ocupar é uma forma de pressão, não de agressão. Temos direito de reivindicar. Se a gente não se mobilizasse, o ministro Raul Jungmann (Política Fundiária) não teria ido falar na televisão, nem o ministro Pedro Malan (Fazenda) iria nos receber. Não adianta colocar a gente na ponta da baioneta, tratar como se fosse uma quadrilha ou bando.
AF - O sr. se afastou da direção nacional do MST. A que vai se dedicar?
Rainha - Temos que transformar a reforma agrária como bandeira na sociedade, como o ‘‘Fora Collor’’ e as ‘‘Diretas Jᒒ.
AF - Que grupos o sr. pretende mobilizar?
Rainha - Os pequenos, que são desassistidos. Tanto é verdade que os programas de maior audiência são os de periferia, que tratam dos casos mais exóticos do país. É porque eles levam, mostram o que está acontecendo no Brasil. Você já viu esses pobres miseráveis terem assistência em alguma coisa? Daí, procuram esses programas na TV.
AF - O sr. diz que a questão agrária está solucionada no Pontal e, por isso, deve deixar a região. Para onde o sr. vai?
Rainha - Eu vou voltar ao Nordeste e ao Norte, a partir do final do mês. No Pontal, os grandes conflitos estão resolvidos. Provavelmente, vou morar no sul do Pará. Lá tem muita terra, muito sem-terra. Vou trabalhar no Nordeste, quero passar minha experiência aos companheiros.
AF - O que o sr. vai fazer por lá?
Rainha - Sou uma pessoa que representa alguma coisa para a sociedade. Vou contribuir para o avanço das negociações. O Nordeste é um lugar muito carente, os fazendeiros são terríveis.
AF - O sr. vai participar de invasões de terras?
Rainha - Já existe quem faça isso lá. Minha proposta é trabalhar a reforma agrária na sociedade. Vou tentar abrir caminhos. Quando eu fui para o Nordeste, em 86, não existia o MST. Eu voltei em 91 e deixei núcleos em vários estados. Hoje, é importante buscar os sindicatos, os movimentos de bairros. Vou me reunir com as lideranças para montar comitês de apoio nas cidades. E acelerar os processos no Incra e no governo. No Nordeste existe uma polícia muito violenta, e é possível discutir isso com os secretários da Segurança. Quero ser um interlocutor do movimento social com as autoridades.
AF - O sr. pretende voltar a morar em um barraco?
Rainha - Se eu tiver que morar na cidade, vou ter muitas dificuldades. É possível fazer meu trabalho morando em um acampamento ou um assentamento. Minha profissão é mexer com a terra. Vou morar e trabalhar no campo.
AF - Sua mulher aceita a mudança?
Rainha - A decisão é de família. Eu estou indo, e a Diolinda tem compreensão disso. Ela tem clareza e consciência. É uma líder, uma dirigente. Também posso me fixar aqui e rodar o país, passar meses viajando.
AF - O MST deseja tomar o poder?
Rainha - Se isso vai acontecer, é outra história. Ninguém faz as coisas planejando, as circunstâncias é que obrigam. Queremos a reforma agrária que é possível fazer, no Brasil, dentro do capitalismo. A reforma agrária é uma medida capitalista.

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