Brasília - A governadora do Rio, Rosinha Garotinho (PMDB), ''estragou a festa'' preparada ontem pelo Planalto para a assinatura de 11 contratos relativos à construção de três novas plataformas de petróleo e à reforma da P-34, com investimentos de R$ 6,3 bilhões, conforme avaliou o presidente da Petrobras, José Eduardo Dutra. Antes mesmo de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter deixado o salão nobre do palácio, onde a cerimônia foi realizada, Rosinha questionou a lisura do processo de licitação de um dos contratos que tinha sido assinado.
A reação de Dutra foi quase imediata. Irritado, ele classificou as acusações da governadora de ''irresponsáveis'' e afirmou: ''Se eu fosse irresponsável, poderia falar também que há corrupção no governo do Estado do Rio, mas não vou falar isso.''
As queixas da governadora foram feitas no fundo do salão nobre, a poucos metros de onde Lula dava autógrafos e posava para fotos. Depois de comemorar os investimentos feitos no Estado, ela levantou uma suspeita. ''Só tem uma coisa que me intriga, que não ficou muito transparente ainda.'' Afirmou, então, que o Rio havia vencido uma licitação e a plataforma seria construída em Niterói (RJ). No entanto, ''a Petrobras cancelou a licitação'' e o projeto foi para a Bahia, onde custaria R$ 80 milhões a mais. ''Eu queria que houvesse um pouco mais de transparência para que nós pudéssemos ter esses dados, publicamente'', atacou.
A governadora acrescentou ainda que havia remetido à ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff, e ao chefe da Secretaria de Coordenação Política e Assuntos Institucionais da Presidência da República, Aldo Rebelo, uma carta comunicando que o Estado daria incentivos fiscais se o consórcio vencedor para os módulos da plataforma PRA-1 fosse o Mauá-Jurong, do Rio.
Assessores da Petrobras avisaram que Dutra responderia imediatamente. Ele chegou com rosto vermelho, demonstrando raiva e atirando. ''Foi um processo absolutamente lícito e ganhou quem apresentou a menor proposta'', afirmou Dutra, que desafiou a governadora a entrar na Justiça para questionar o resultado da licitação, depois de lembrar que nem mesmo a empresa que perdeu fez isso. ''Ora, tenha a santa paciência!'' Ele acrescentou: ''O governo do Estado do Rio de Janeiro sempre tem procurado capitalizar iniciativas da Petrobras.''
Dutra explicou por que a licitação foi cancelada e foi promovido um ''processo de negociação''. Segundo ele, os preços apresentados pelas três concorrentes foram ''excessivos'' e, com base no Decreto 2.745, que regulamenta as licitações, a concorrência foi cancelada e um novo procedimento, estabelecido, dando a vitória ao consórcio Odebrecht-Ultratec, levando esses investimentos para a Bahia. ''A proposta da vencedora era mais viável, tecnicamente, e mais barata'', assegurou Dutra. O consórcio do Rio, segundo ele, ''além de mais caro, apresentava problemas técnicos''.
O presidente da Petrobras avisou ainda que, na audiência da qual participará na terça-feira no Senado, que não estava marcada para isso, vai ''apresentar todos os dados sobre a licitação para mostrar todos os números possíveis e encerrar a polêmica''.
Depois da cerimônia, o governador da Bahia, Paulo Souto (PFL), adversário do governo federal, e o prefeito de Niterói, Godofredo Pinto (PT), saíram em defesa da Petrobras e do processo de licitação realizado. ''Não procedem as críticas da governadora. Esse clima de estresse político espanta novos investidores'', disse o prefeito de Niterói, que seria um dos grandes beneficiados com o investimento da Petrobras. Ele justificou que o consórcio perdedor, Mauá-Jurong, ''apresentou um preço US$ 10 milhões mais alto''. Ele lembrou que a cidade é beneficiada com parte dessa PRA-1 e com a construção de duas outras plataformas de petróleo.

mockup