Questão ética deve dominar debate eleitoral
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sábado, 25 de fevereiro de 2006
Rogério Schlegel<br> Agência Estado 
São Paulo - A imagem da semana que passou foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na praia. Sozinho, nadando de braçada na popularidade reconquistada, Lula levantou as mãos para o céu e fez uma oração. Deve ter agradecido aos deuses da economia, que têm ajudado a melhorar sua aprovação e chances de reeleição. Para completar a cena simbólica, é preciso imaginar o escândalo do mensalão. Para cientistas políticos e analistas de opinião pública, ele está ali, submerso, pronto a voltar à tona. Na eleição deste ano, a questão ética deve ser um tema decisivo para o brasileiro. Não é o caso de esquecer a frase que deixou famoso James Carville, assessor de Bill Clinton em 1992: ''É a economia, estúpido.'' Mas esta promete ser a eleição em que a economia terá menor impacto nas urnas, desde a redemocratização de 1985.
O desempenho econômico do País e das pessoas individualmente continuará sendo preocupação central do brasileiro. Ponto para Lula. No entanto, há todas as chances de a corrupção rivalizar em importância, dizem pesquisadores da área. ''A preocupação com a ética pode até dominar'', diz Marcus Figueiredo, cientista político do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj) e autor de ''A Decisão do Voto''.
Nas eleições anteriores, a economia foi decisiva. Em 1989, a hiperinflação e o fracasso do Plano Cruzado tiraram todas as chances do PMDB; tratava-se de decidir qual oposicionista eleger. Em 1994, o Plano Real tornou Fernando Henrique Cardoso imbatível. Em 1998, os indicadores econômicos continuavam favoráveis, apesar do tombo que se avizinhava e que chegou logo após a eleição, com a desvalorização do real. Em 2002, baixo crescimento e alto desemprego colocaram o discurso da mudança até na boca do candidato do governo, José Serra. Deu Lula.
Em todos esses casos, não foram propostas econômicas abstratas que sensibilizaram o eleitor. O foco é o bolso. ''Na hora do voto, ele se pergunta: o que eu ganhei com isso e o que eu posso ganhar no futuro?'', analisa Figueiredo. O brasileiro até leva em conta a situação geral, o ''bolso da nação''. O que ele não faz é se deixar iludir por propostas econômicas impalpáveis.
Ex-imbatível Pensando nesse voto econômico, o presidente Lula já teve a condição de candidato virtualmente imbatível. O Produto Interno Bruto (PIB) tem crescido, o salário mínimo acumula aumentos reais, o emprego e a renda melhoram. ''É isso que explica o sucesso relativo do governo Lula nas pesquisas de opinião'', avalia Rachel Meneguello, pesquisadora do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop), da Unicamp, que coordenou pesquisa nacional após as eleições de 2002. ''No Brasil e na América Latina, o usual é a economia ser um fator central na avaliação do governo. Foi assim em toda a década de 90.''
Ocorre que boa avaliação de governo não vira automaticamente voto no governante. Outros fatores entram na ponderação do cidadão, e é isso que esta eleição tem de especial. O escândalo do mensalão trouxe a questão da corrupção para o centro do debate político. ''Isso diminui o peso da economia e torna esta eleição mais incerta do que as anteriores'', afirma Yan Carreirão, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e autor de ''A Decisão do Voto nas Eleições Brasileiras''.
Para Figueiredo, no atual cenário tanto Lula como a oposição farão promessas de um futuro melhor. A questão é quem parece ser mais capaz de garanti-lo. O presidente vai insistir em que ''nunca neste País'' houve tantos avanços e os tucanos, adversários prováveis, tentarão se apresentar como os verdadeiros pais do relativo sucesso econômico, semeado nos governos Fernando Henrique Cardoso. ''As duas estratégias têm elementos para convencer'', acredita Figueiredo.
A oposição ainda tem a seu favor a discussão sobre a corrupção. Ela deve apostar na acusação ''faz, mas rouba''. No fundo, afirma Figueiredo, trata-se de dizer para o eleitor que o governo poderia ter feito mais, não fossem os desvios. ''É apelar para o bolso, mais uma vez'', diz. Aos governistas, resta mostrar que não são diferentes dos demais em matéria de ética. Quem será mais convincente? ''Essa é grande questão da campanha'', diz Figueiredo.
Há outros ingredientes para reforçar o peso da ética. Um terceiro candidato com chances o ex-governador do Rio Anthony Garotinho (PMDB) é sempre lembrado tende a explorar o tema e deixá-lo ainda mais em evidência. Como tucanos e petistas terão o que mostrar em matéria de economia, a ética é assunto promissor para essa candidatura. ''Não faltaria munição contra PSDB ou PT'', avalia Carreirão.


