QUESTÃO DE PELE - Crime racial é velado no Brasil
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Luciano Augusto<br>Reportagem Local 
Em abril de 2005, a FOLHA estampava em suas páginas uma situação de racismo contra funcionários do Hospital Universitário (HU) de Londrina cometida em comunidades do Orkut por futuros médicos que cursavam residência na instituição. Dois envolvidos foram acusados e condenados pela Justiça, mas recorreram.
Semana passada, o jornal voltou à questão em razão de uma agressão contra uma assessora, que teria sido praticada por uma colega de trabalho dentro de uma sala da chefia de gabinete da Prefeitura de Londrina. Em ambas situações, as vítimas foram comparadas à macacos pelo fato de serem negras.
Nesta entrevista, a assessora da prefeitura que formalizou a denúncia e integra o Conselho Municipal de Apoio à Comunidade Negra e Igualdade Racial de Londrina, Maria Eugênia de Almeida Pinto, diz que denunciou o crime não por revanchismo ou para fazer um linchamento moral da agressora nem da administração municipal, mas porque, como militante do movimento negro, não poderia se omitir. Não me omitiria porque já militei no movimento estudantil (durante a Ditadura Militar), batalhei por anistia, liberdade de imprensa, destaca. Ela avalia que, embora o país tenha avançado em muitos aspectos em relação à promoção da igualdade racial, ainda há muitos passos a serem dados.
Para ela, somente através da educação e da disseminação da informação o Brasil vai conseguir superar preconceitos e diferenças forjadas por séculos de exclusão.
Sua atuação como militante foi o que lhe deu condições para trabalhar estas questões?
Sim. Por indicação do movimento negro fui fazer esse trabalho. No decorrer do processo, veio a eleição do presidente Lula e foi instituída a Secretaria Especial de Promoção Racial (Sepir), que tem configuração de igualdade racial que não abrange só o negro. No conselho municipal trabalhamos com indígenas e japoneses, que também sofrem discriminações. Pesquisei trabalhos da Delegacia de Crimes Raciais de São Paulo e confirmei que toda agressão associada à sua origem racial é uma agressão racista. No caso do negro, há três situações: ou se agride moralmente, chamando de negro vagabundo, negro safado; ou se agride pelo gênero associado a depreciações sexuais (negra vadia); ou se agride animalizando (negro como macaco ou urubu). Na questão racial, estamos engatinhando. Tivemos quase 400 anos de escravidão, agora em 13 de maio a abolição da escravidão completa 120 anos, houve o processo democrático de 1988, que é de 20 anos. Tudo a gente está aprendendo. Há liberdade para falar, mas precisamos construir uma série de coisas nas questões de igualdade e oportunidades. Aí, trabalhamos a questão das cotas em universidades, a inclusão educacional de base, com a lei 2.639 que tenta resgatar a história do negro em uma outra perspectiva.
Essas iniciativas vão acabar com agressões como a que a senhora sofreu?
Acho que a base da transformação é a educação.
Mas muita gente ainda vê a instituição das cotas para negros, por exemplo, quase como um golpe...
A gente enfrentou esse debate. São etapas e estamos aprendendo. Temos certeza de que muitos negros ouviram com dificuldade que iriam entrar na universidade pela porta dos fundos, mas defendemos a tese de que estas pessoas precisam de oportunidade.
No médio prazo, a senhora acha que as pessoas vão legitimar isso?
Creio que sim. A universidade estabeleceu um prazo para avaliação e até agora os resultados estão sendo positivos. Mais estudantes negros significa mais professores negros, mais médicos negros, ou seja, pessoas que no futuro irão se encorpar nas políticas públicas e disseminar o debate.
Como o Conselho criado em Londrina pode ajudar na promoção da igualdade racial?
Colocamos mais de 90 propostas vindas do movimento negro e da comunidade indígena. Esse documento está sendo trabalhado, mas precisamos lembrar que o conselho tomou posse no dia 28 de março.
O Conselho recebe denúncias?
Hoje a gente não tem estrutura para receber denúncias.
A forma como a senhora está enfrentando o que sofreu pode ajudar a mudar a visão das pessoas?
Acho que a primeira coisa é ter a garantia da lei, que precisa proteger quem denuncia. Como militante, o que mais me incomoda é que quem disse, disse para alguém que tem conhecimento dos seus direitos. Mas sei que isso acontece cotidianamente. Mais de 40% da população é negra, ou afrodescendente, e não faz parte de nenhum movimento. Podem ser vítimas e precisam saber que isso é crime.
Muita gente que passa por isso não toma iniciativa?
Acho que há uma tendência da Justiça de tornar um crime de injúria racial em injúria, porque o crime racial é inafiançável. São processos. As coisas vão melhorando com as vitórias na Justiça.


