Curitiba – O ex-diretor de Abastecimento da Petrobras e um dos primeiros delatores da Operação Lava Jato, Paulo Roberto Costa foi ouvido pela primeira vez como testemunha de acusação do Ministério Público Federal (MPF) em audiência ontem na 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba.
"Meu cliente confirmou tudo o que ele sabe, repetiu com uma precisão absoluta. Ele começou a ter este posicionamento, de falar o que sabia não por uma questão de negociar pena, ele estava realmente necessitando colocar tudo isso para fora. Ele estava há 30 anos na Petrobras, altamente qualificado, e nesse caso quis ser diretor e viu, posteriormente, que as contingências não eram aquelas possíveis. Ele disse que ‘quer de volta sua alma’, sentiu que a caneta não estava mais na mão dele, estava enojado", afirmou o advogado de Costa, João Mestieri.
Paulo Roberto Costa foi ouvido na ação em que o ex-diretor de Internacional Nestor Cerveró e o lobista Fernando Antonio Falcão Soares, o Fernando Baiano, são apontados como elos do PMDB na arrecadação de propina na estatal. Além Costa, o advogado e proprietário formal da GFD Investimentos (controlada por Alberto Youssef), Carlos Alberto Pereira da Costa, também prestou esclarecimentos ao juiz federal Sérgio Moro. Foi o décimo e último dia de oitivas antes do Carnaval.
Conforme o processo que tramita na Justiça Federal, Cerveró é acusado de ter recebido propina entre 2006 e 2007 para intermediar a contratação de navios-sonda para a perfuração de águas profundas na África e no México. A entrega dos valores, pagos pelo executivo da Toyo Setal, Júlio Camargo, teria sido intermediada por Fernando Antônio Falcão Soares, o "Baiano". Na mesma ação penal, ele também foi denunciado por lavagem do dinheiro. A Procuradoria da República constatou que chegou a US$ 40 milhões (R$ 53 milhões) toda a propina paga nesse caso, incluindo como beneficiários, além dos três já citados, o doleiro Youssef.
Costa afirmou que contratos envolvendo a compra de navios-sonda, normalmente com custos mais altos, só são aprovados após passar pelo crivo do conselho de administração da Petrobras. Segundo ele, os diretores da Petrobras têm limites de competência relativamente baixos pela importância e responsabilidade dos cargos. "O limite de competência da diretoria fica em torno de contratos de até R$ 20 milhões, se não me engano. Acima deste limite qualquer contrato teria que passar pelo crivo da diretoria executiva da estatal. E os contratos de compra de sonda, de construção de refinarias, por exemplo, chegam à casa dos bilhões. Então, essa pauta é submetida ao colegiado da diretoria, conselho de administração. Mas em muitas situações, várias pautas foram reprovadas", disse no depoimento.
O engenheiro também afirmou que foi apresentado por Fernando "Baiano" por intermédio de Cerveró, entre 2005 e 2006; e que só recebeu propina de Baiano em relação à compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, e em um contrato fechado entre a estatal e a empresa Andrade Gutierrez, que não eram alvos do processo relatado ontem. "Foram feitas perguntas que reafirmaram tudo aquilo que está na delação, ele (Costa) confirmou a verdade. Deixou claro que uma diretoria na Petrobras não resolve nem decide nada. É sempre realizada uma reunião da diretoria e essa decisão é levada ao colegiado maior, que é o conselho de administração", ressaltou Mestieri.
Para o advogado de Cerveró, Edson Ribeiro a audiência ocorreu de forma tranquila e foi positiva para a defesa. "As testemunhas demonstraram que o Nestor é inocente neste caso, então foi tudo muito bom. Cerveró não participou de coisa alguma. Saímos satisfeitos porque hoje ficou constatado que ele é totalmente inocente. Acredito que a formação de convicção do juiz já esteja feita para a absolvição do Nestor", arriscou Ribeiro.

DEFESA

Encerrada a fase de testemunhas de acusação, começam a oitivas das testemunhas de defesa e os interrogatórios dos 39 réus da sétima fase da Lava Jato. A primeira audiência está marcada para o dia 25. Os depoimentos fazem parte dos processos contra executivos de empreiteiras, além de ex-diretores da estatal e pessoas acusadas de operar o esquema de pagamentos de propina. Os empresários são ligados às empresas Engevix, Mendes Júnior, Galvão Engenharia, OAS, Camargo Corrêa e UTC. Segundo o Ministério Público Federal, as empreiteiras participaram do chamado "clube", cartel formado pelas maiores construtoras do Brasil para garantir contratos com a Petrobras.

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