'Queremos governar para os trabalhadores e os pobres'
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Marcela Rocha Mendes<BR>Equipe da Folha 
Curitiba - Aos 36 anos, o mineiro Avanilson Alves Araújo (PSTU) busca, em sua primeira disputa eleitoral, o cargo máximo do Executivo paranaense. Para isso, o advogado de movimentos sociais acredita ter o plano de governo mais radical entre os sete candidatos ao governo do Estado. Sua principal bandeira é a suspensão do pagamento das divídas interna e externa a fim de aumentar investimentos em saúde, educação, moradias populares e programas sociais. Confira a entrevista que o candidato concedeu à FOLHA:
Segundo levantamento realizado pela FOLHA, só 25% dos municípios declararam ter ambulância equipada e 29% não têm nenhum hospital. O que o sr. destacaria como prioridade em saúde, caso eleito?
Para nós, do PSTU, o fato de não ter investimentos sociais tem ver com o para quem que se governa. O Paraná não gasta hoje nem o mínimo legal. Uma das nossas propostas centrais é direcionar recursos do pagamento da dívida, tanto interna quanto externa, para dobrar os investimentos em saúde e em educação. No governo do PSTU nenhum recurso público seria direcionado para qualquer tipo de parceria com a iniciativa privada. Em relação à demanda dos trabalhadores da saúde no Paraná, nossa proposta é implementar direitos como a redução da jornada de trabalho para gerar mais emprego e dobrar o número de servidores. Para isso, nós defendemos acabar com as contratações precárias de trabalhadores e contratos terceirizados. Muitos falam que o programa do PSTU é radical, mas nós queremos reverter totalmente a forma de se governar.
As dez escolas paranaenses com piores desempenho no Enem 2009 são estaduais. Quais são os programas do PSTU para a educação?
Nós acreditamos que isso se resolve com algumas medidas, como o ensino integral. Defendemos que, para ter o ensino integral, é preciso dobrar o número de servidores da educação atualmente. Isso é possível atendendo a pauta de reivindicações da categoria e ampliando a qualidade da educação. A gestão da educação hoje não é democrática. Defendemos que a comunidade escolar tem que ter autonomia com conselhos populares de educação que incorporem trabalhadores da educação, pais de alunos e os próprios alunos para pensar um currículo que contemple a formação nas disciplinas curriculares e, principalmente, naquele que deveria ser o objetivo da escola: a formação geral do ser humano. E, para dobrar o número de trabalhadores e ter o ensino integral, é preciso tocar no termo do salário. Vamos qualificar os professores, pagar um salário melhor do que é pago hoje. Defendemos como pauta salarial dos trabalhadores, principalmente para os professores, o piso do Dieese para 20 horas, hoje R$ 2,157.
Na área da segurança pública, mais polícia é a solução?
O problema da violência é o problema da desigualdade que existe na sociedade. Hoje a polícia é utilizada não para a conter a violência que a classe trabalhadora sofre. Nós defendemos um programa radical que é, primeiro, acabar com a violência institucional. A organização da força polícia é pensada para fazer o controle da população, principalmente quem não tem emprego e os movimentos populares que reivindicam, por exemplo, terra no Paraná. Vamos resolver atacando o problema da desigualdade com o aumento do número de empregos. Defendemos a redução da jornada de trabalho para 36 horas para aumentar em 6 milhões o número de empregos no Brasil. A distribuição da terra resolveria o problema de 2 milhões de famílias sem-terra. Defendemos a legalização de todas as drogas. Nós acreditamos no controle legal por parte do Estado. Não defendemos o consumo, porque essa é uma questão cultural, um hábito que não deixará de existir seja legal ou ilegal. Precisamos que o Estado controle isso e crie um fundo público para proporcionar àquelas pessoas que têm uma relação abusiva com as drogas um espaço para tratamento especializado. Podemos começar com uma política de transição, legalizando as drogas mais leves, associada a um programa mais específico para a juventude que envolve educação, o combate à violência e a criação de uma rede de proteção da juventude, que não existe.
O deficit habitacional no Paraná estaria em 260 mil casas. O seu plano de governo prevê a construção de 300 mil casas. Como seria feito isso?
Isso tem muito a ver com a questão do emprego. Isso se resolve com um profundo plano de obras públicas. A gente não trabalha casa como um conceito isolado. É um outro problema das políticas de moradia, elas não integram os projetos habitacionais ao direito à cidade. Nós defendemos moradia digna, saneamento básico, água, esgoto, transporte, acesso à cidade, direito de ir e vir, com transporte público gratuito para alguns segmentos como estudantes, desempregados. Só com a suspensão do pagamento da dívida do Banestado, fizemos um estudo, poderíamos construir no Paraná 100 mil casas populares, integrado a um programa que inclua um plano de obras públicas para gerar emprego para a população. Estamos trabalhando uma ação popular que questione essa dívida, demonstrando que foi um contrato ilegal a venda do Banestado e que a dívida já foi paga.
Vocês defendem o fim da Lei de Responsabilidade Fiscal. Por quê?
Pela própria lógica da discussão que fazemos de para quem se governa. A Lei de Responsabilidade Fiscal não melhora a qualidade do serviço público porque você limita a contratação do serviço público. Ela é tratada como um dogma, como se, ao quebrá-la, fosse quebrar o Estado. A lei deixa muito claro que pode faltar orçamento para tudo, menos para garantir o pagamento dos juros e da amortização da dívida tanto externa quanto interna. E da dívida privada inclusive. Nós defendemos uma lei de responsabilidade social para discutir qual o papel do Estado na sociedade. Queremos governar para os trabalhadores, para a população mais pobre, que representa 90%. Não vamos ser um governo de todos, nós escolhemos um lado para governar e nós queremos discutir com esse lado para mostrar que é possível um governo dos trabalhadores.
No que a sua candidatura se diferencia das demais?
O tema da dívida pública. Nenhum outro partido vai defender o que nós defendemos: a reestatização do sistema financeiro. O Paraná precisa de um banco público sim, não é uma utopia. Suspender o pagamento das dívidas para dobrar os gastos com educação, saúde, cultura. Além do problema da terra. Defendemos a reforma agrária sob controle dos próprios trabalhadores. Queremos a estatização das grandes cooperativas do agronegócio do Paraná para reduzir o preço dos alimentos. Defendemos que a terra tem que ser trabalhada coletivamente. Discutimos também o tema das estatais no Paraná. Principalmente a Copel e a Sanepar, que não são estatais. Defendemos a estatização da Copel e da Sanepar, com capital 100% estatal para investir em internet gratuita, reduzir 50% da tarifa da energia.
FICHA DO CANDIDATO
Nome de Urna: Avanilson
Partido/Coligação: PSTU
Nome Completo: Avanilson Alves de Araújo
Data de nascimento: 07/04/1974
Local de nascimento: Governador
Valadares/MG
Estado Civil: Solteiro
Filhos: Não
Formação: Advogado com mestrado em Ciências Sociais pela UEL
Cargos Eletivos: Nenhum
Outros cargos de destaque: Advogado do MST, de movimentos sindicais, da Renapi. Atualmente é advogado da Central Sindical e Popular Conlutas
Já pertenceu a quais partidos: PT e PSTU
Patrimônio total: R$ 10 mil
Estimativa de gasto máximo com campanha eleitoral: R$ 100 mil


