Candidato mais velho nessas eleições ao governo do Estado, Amadeu Felipe (PCB), 74, recebeu a FOLHA para esta entrevista em dia e local emblemáticos: 7 de Setembro, Dia da Pátria, no apartamento de classe média na região do Lago Igapó, cartão postal de Londrina. Sobre a defesa por uma Pátria socialista, pela qual lutou e ficou preso durante a Ditadura, permaneceram as lembranças e a ideologia que prega hoje em um ''socialismo democrático'', mais voltado à ''conscientização das pessoas'', como define. Sobre os confortos típicos do capitalismo, que tanto critica, assegura: ''As conquistas são da humanidade, não desse regime. O que vale é o trabalho, as pessoas, de modo que tenho o que posso ter e quero que todo mundo tenha o que eu tenho''. Confira, a seguir, quais as propostas de Amadeu caso se eleja governador.
O artigo 6º da Constituição Federal estabelece como direitos sociais, por exemplo, educação, saúde, trabalho e segurança. Na Saúde, seu programa de governo fala em ''total assistência'' e em ''regionalização do atendimento médico-hospitar''. Que ações práticas o senhor pretende implementar em relação a essa que hoje é uma das principais queixas dos municípios paranaenses?
Não é apenas esse artigo que não é cumprido, mas também o artigo 26, das disposições transitórias, que até hoje, 22 anos, não é cumprido; os deputados simplesmente ignoram que existe - é o artigo que determina que se faça auditoria da dívida brasileira. Se tivéssemos auditado a dívida lá em 1989, como era determinação da Constituição de 88, não faltaria dinheiro para a saúde. Se eu der o azar de ganhar essa eleição, uma coisa é certa: a primeira coisa que farei é remeter um projeto de lei para a Assembleia Legislativa que cria a saúde universal pública e gratuita a todo o estado. Com um orçamento de R$ 25 bilhões ao estado todo, será que dá? Que não desse para outra coisa, mas para saúde é obrigado.
O levantamento publicado no último dia 26 pela FOLHA sobre as carências apontadas pelos 399 municípios do Paraná trouxe, no topo do ranking das queixas, o déficit habitacional. Como o senhor pretende solucionar ou ao menos minimizar esse problema?
No meu governo, casa popular não vai enriquecer construtora, vai ser feita por meio de mutirão. É possível fazer uma casa de boa qualidade de 50, 60 metros quadrados, com R$ 7 mil, R$ 8 mil, desde que se utilize o mutirão, que é uma tradição do povo brasileiro - há muitas cidades no Paraná e no Brasil em que isso acontece. Casa popular não é para gerar lucro para construtora, e muito menos para sobrar dinheiro para eleição, pois em Londrina e em Curitiba a gente teve essa experiência, e em outras cidades: são as construtoras que doam dinheiro às campanhas.
O senhor fez parte da Casa Militar durante o governo de João Goulart (1961-64). O que propõe, para a segurança pública do estado, para reverter os números da violência e do avanço da criminalidade?
A primeira coisa é acabar com a corrupção policial, por meio de fiscalização e um regulamento muito claro, e por uma formação do profissional militar de boa qualidade. Outra questão é promover por mérito e antiguidade, não por puxa-saquismo; isso vai ser feito. E equipamentos para serem utilizados têm que ser apropriados, não qualquer um.
O que é preponderante quando se fala em insegurança pública: a falta de preparo do policial, até com eventual corrupção no meio, ou a falta de efetivo? Porque a população reclama de falta de efetivo
A falta de preparo do policial e também a corrupção - são as duas questões fundamentais. O povo reclama da falta porque, quando tem esse contato com policiais, não é algo bom. Eu diria então que quase não tem contato com policiais, e, quando há, o policial não tem preparo para isso. Então a grande questão é dar a preparação à polícia, dar salários dignos, dar formação e evitar a corrupção a todo momento.
Adotar uma reforma agrária, fazer uma ''Revolução Brasileira'' pela ''Formação da Frente Anticapitalista e Antiimperialista'' - todos esses, princípios do PCB -, não formar coligações e ainda assim garantir a governabilidade. Dá para juntar tudo isso?
Veja bem, se a gente ganha a eleição é possível fazer tudo isso, porque vamos governar tendo por base a força maior dentro de um Estado ou dentro de uma nação, que é o povo. E ele não só é maioria, e grande maioria, como tem força. E se você der a ele a oportunidade de participar das ações de um governo democrático, não tenho dúvida de que vamos realizar. Porque os deputados não cumprem a Constituição Federal, no entanto com o povo, brioso, lutando por seus direitos, não tenho a menor dúvida de que vamos aprovar todas as leis na Assembleia, na Câmara Federal ou no Senado. A reforma agrária não é feita, por isso dá esse conflito todo. O Incra, que deveria ser o instrumento da reforma agrária, é o instrumento do retardo dela.
O PCB, ou Partidão, como alguns chamam, data de 25 de março de 1922. O senhor é militante nele há mais de cinco décadas. Em um mundo hoje em que se discute a participação do cidadão por meio de redes sociais, por exemplo, acredita que alguns conceitos do partido precisam ser atualizados ou remodelados?
Sim, pois nada é mecânico. A gente precisa é estar preparado para uma sociedade bem aberta, e um socialismo é muito mais democrático que o capitalismo, que essa falsa democracia. Temos de estar preparados para constituir um socialismo democrático, que é o que sempre deveria ter sido feito. Assumimos todos os erros que foram praticados na construção do regime socialista na União Soviética, como também os benefícios por aquilo que fizeram de bom. Temos de estar preparados ainda é em relação à construção do regime socialista em um país como o nosso. Não penso que vou fazer socialismo no estado do Paraná. O que vamos é tentar fazer com que algumas medidas cheguem perto de uma construção socialista, como na saúde, educação, segurança, tudo isso, mas a construção de um regime (socialista) em um estado do Brasil é impossível. E quando eu, ou nosso candidato a presidente (Ivan Pinheiro) falamos em revolução, falamos dessa grande transformação. Ninguém está pensando em pegar em armas, isso já fiz no passado, mas era contra a ditadura. Paguei o preço, cinco anos prisão, e estou aqui lutando pela mesma causa, com outros meios e em outro momento.
Uma dúvida: como é para um socialista que visita assentamentos e que tem bem noção de como é a vida dessas famílias que não têm onde morar, declarar à Justiça Eleitoral, entre os bens, um apartamento de R$ 320 mil na região do lago Igapó (cartão postal de Londrina)? Já passou por algum outro questionamento por conta disso?
Não, não tenho o que esconder. É um financiamento, do qual ainda devo cinco anos, e sai do meu salário, conquista do meu tempo de menino até minha vida adulta. Moro onde acho que todo mundo teria que morar, com conforto.
Mas não é um sonho capitalista morar, em Londrina, quase à beira do Igapó?
Não é sonho capitalista. Sempre morei muito bem, nasci em uma família com posses, mas nunca abusei disso em absolutamente nada. Tenho o que posso ter e quero que todo mundo tenha o que eu tenho. Estou lutando para que todos tenham acesso ao que eu tenho. Meus filhos estudaram em boas escolas, todos estão formados, e não é porque são filhos de comunista que os deixaria fora da escola, ou que não lhes permitiria esses confortos. Mas esses confortos não são do regime capitalista, são das conquistas da humanidade. O Capitalismo não trouxe conquista para ninguém, pelo contrário: de 6 bilhões de habitantes, temos 1 bilhão hoje passando fome. Dessa forma, foi a humanidade, por meio de seu desenvolvimento, que construiu essa riqueza que a gente tem, inclusive a ciência. O que vale não é o capital, o que vale é o trabalho, as pessoas, não o regime. O mundo não nasceu capitalista, não vai morrer capitalista.





FICHA DO CANDIDATO

Nome de urna: Amadeu Felipe (21)
Partido/coligação: PCB
Nome completo: Amadeu Felipe da Luz Ferreira
Data de nascimento: 16/12/1935
Local de nascimento: Blumenau/SC
Estado civil: Divorciado
Filhos: Cinco; 11 netos
Formação: Militar reformado
Cargos públicos que ocupou: Subsecretário de Indústria e Comércio na Região Norte no governo de José Richa (1983-86) e secretário municipal e chefe de gabinete na gestão de Luiz Eduardo Cheida (1993-96)
Já pertenceu a quais partidos: PCB desde a década de 1940
Candidato a vice-governador: Gilberto Oliveira Gomes
Patrimônio total: R$ 423.708,18
Estimativa de gasto máximo com campanha eleitoral: R$ 500 mil

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