Brasília - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está cada vez mais isolado. Ao restrito núcleo de ministros com os quais ainda conversa desde a eclosão da crise política, há três meses, Lula chegou a dizer que não aguenta mais o ''denuncismo'' e o ''vale-tudo'' para impedi-lo de governar. ''Eu já afastei o José Dirceu, mas para a oposição não basta. Agora vale qualquer coisa contra o PT e o governo'', queixou-se o presidente, numa referência ao ex-chefe da Casa Civil.
Com a força de um tsunami, a crise política que começou em maio envolveu os dois principais ministros da administração petista. Em junho, derrubou Dirceu. Hoje, atinge o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, acusado por seu ex-secretário de Governo Rogério Buratti de receber R$ 50 mil mensais de empreiteiras quando era prefeito de Ribeirão Preto.
Foi com muita irritação que Lula reagiu às denúncias feitas por Buratti ao Ministério Público. Confia muito em Palocci, mas teme a contaminação da economia. ''Querem acabar com o meu governo'', desabafou. Quem conversou com o presidente, nos últimos dias, contou que ele mostra total inconformismo com a evolução da crise. Acha que não é possível nem mesmo adotar uma linha de defesa, porque o governo não sabe o que virá pela frente.
''Estamos andando no escuro, sem bússola. Cada dia aparece uma coisa nova'', definiu o deputado Sigmaringa Seixas (PT-DF). ''Lula está muito amargurado com tudo isso'', contou o presidente do PT, Tarso Genro.
Emissários de Lula pediram a Dirceu, hoje deputado federal, que não crie mais constrangimentos ao governo e ao PT e saia da chapa inscrita pelo Campo Majoritário - grupo que detém a hegemonia do partido -para a eleição do Diretório Nacional, em setembro. Dirceu respondeu que não abandonará o páreo. Está disposto a desafiar Tarso, seu desafeto, e forçá-lo a desistir da candidatura à presidência do PT. Pior: a alguns interlocutores, o ex-ministro deu sinais de que, se rifado, poderá arrastar Lula para o centro da crise.
O agravamento da crise política mostra que, pelo menos em um ponto, concordam a oposição, o Governo e o PT e os partidos da combalida base aliada: o impedimento do presidente Lula não é um negócio para nenhuma das partes: Portanto, a saída é reforçar que o presidente não sabia do esquema escandaloso de arrecadação e distribuição de verba.
Hipocrisia - ''O que está acontecendo é uma hipocrisia nacional. Não vou sair do PT com pecha de corrupto'', protestou Dirceu, segundo relato de um dirigente do partido que conversou com ele. ''Ninguém vai se salvar sozinho.''
Fiador das alianças que conduziram Lula ao Palácio do Planalto, Dirceu foi o todo-poderoso da política e do PT, partido que presidiu de 1995 a 2002. Sabe que vai ser cassado pela Câmara, acusado de envolvimento no escândalo do mensalão. Alega, porém, que a cassação é um ato político.
Ao menos no PT, o ex-ministro esperava que Lula interferisse a favor de uma ''saída honrosa'' para ele. Não foi o que ocorreu. Com a guerra aberta entre Dirceu e Tarso, o Campo Majoritário rachou. ''Se não criarmos um programa mínimo de reconstrução, o PT não terá mais viabilidade e o nosso projeto será arquivado'', argumentou Tarso, ex-ministro da Educação.
Dirceu sempre teve embates dentro do governo, mas o mais duro deles foi com Palocci, hoje na berlinda. Na prática, os dois petistas disputavam palmo a palmo o legado político de Lula, de olho na eleição presidencial de 2010. Não raramente o então chefe da Casa Civil escancarava suas divergências com os rumos da política econômica e as altas taxas de juros.
''Você não vai tratar a gente como um bando de moleques!'', esbravejou Dirceu para Palocci, no segundo semestre do ano passado, durante reunião reservada de ministros do PT. A conversa foi pontuada por queixas sobre a penúria orçamentária e pedidos de liberação de recursos. Em vão.
Nessas ocasiões, Lula sempre saía em defesa de Palocci, o que irritava Dirceu. Mas o coro dos ministros descontentes com o rigoroso ajuste fiscal foi ficando cada vez mais encorpado. Na última reunião ministerial, há nove dias, houve um tenso debate sobre o tamanho do superávit primário - a economia de gastos feita pelo governo para pagamento de juros da dívida.
Palocci defendia a meta de 5% do PIB para 2006. Dilma Rousseff, sucessora de Dirceu na Casa Civil, foi contra: sustentou que os investimentos seriam ainda mais sacrificados e obteve apoio dos colegas. Árbitro do confronto, Lula decidiu manter o esforço fiscal em 4,25%.
Vencido na queda-de-braço, Palocci tem dito, em conversas privadas, que a crise política não pode fazer o governo cair na tentação do ''populismo econômico''. Até agora, foi ouvido por Lula. Não sabe, no entanto, o que pode ocorrer depois de entrar na linha de tiro. ''A cabeça do Palocci, hoje, é um ponto de interrogação'', resumiu um de seus auxiliares ao ser questionado sobre o futuro do ministro e do governo Lula.

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