Curitiba - Nas duas campanhas que disputou para o governo do Paraná, Jaime Lerner (PFL), que deixa o cargo em pouco mais de 20 dias, conquistou a maioria dos votos dos eleitores. A projeção nacional obtida com a administração de Curitiba, como prefeito, e os planos de governo que apresentou desde 1995, quando assumiu pela primeira vez o Palácio Iguaçu, lhe conferiram, pela primeira vez na história política do Estado, dois mandatos consecutivos. Do que planejou nesses oito anos de governo, entretanto, nem tudo foi possível executar. Em outras áreas, como Lerner diz, obteve avanços que ultrapassaram o que seu governo imaginava.
As críticas ao trabalho desenvolvido nesses anos são muitas. Vêm da oposição, de sindicatos, de funcionários públicos insatisfeitos e dizem respeito sobretudo à política desestatizante imprimida pela equipe de Lerner. Foi no governo Lerner que o Banestado foi vendido, que a Copel foi quase privatizada, que implantou-se o pedágio nas rodovias estaduais, que extinguiu-se o Instituto de Previdência do Estado (IPE), que entregou-se setores estratégicos para a iniciativa privada, e que a dívida pública do Estado cresceu assustadoramente.
O reconhecimento, por outro lado, também é significativo e vem de políticos que nunca o acusaram de discriminação por pertecerem a agremiações políticas destoantes do PFL, partido de Lerner. A administração Lerner vai deixar marcas nos muitos municípios. Na Região Metropolitana de Curitiba, instalou-se um parque industrial. Em Guaíra, as obras das pontes de Camargo. No Sudoeste, a Usina de Salto Segredo. Em Curitiba, é possível ir ao NovoMuseu de ligeirinho. A estação-tubo, marca registrada de Lerner, que é arquiteto por formação, fica em frente à pomposa obra. Marcas de um governo em que a atividade profissional do seu administrador fica evidente em muitas ocasiões.
Lerner acredita estar entregando ao senador Roberto Requião (PMDB), seu sucessor, um Estado mudado, que terá excelentes condições de arrecadação nos próximos anos, em função das novas indústrias, e consequentemente melhores condições de responder às demandas sociais.
A segurança pública é vista por Lerner como a área que ainda precisa avançar muito no Paraná. ''Atuamos nas causas. Hoje não temos no Paraná as Febens, temos um educandário modelo. Nós não temos as fábricas de bandidos, que acontecem em outros estados, porque pouco a pouco estamos retirando das delegacias aqueles que aguardavam pena ou aqueles que estão cumprindo pena. As delegacias começam a se voltar novamente para a segurança da população. Mas sempre falta muita coisa. Cada processo de avanço exige novos avanços'', declara.
Primeiro governador reeleito do Paraná, Lerner não considera a experiência boa. ''Eu não acho que a reeleição seja boa. Eu acho que os mandatos poderiam ser de cinco anos. Assim se daria sempre a possibilidade de renovar os quadros dos governos. Eu acho que essa é uma medida melhor que a reeleição.''
Essa conclusão de Lerner surgiu da sua própria experiência. Segundo ele, o desgaste é muito grande. E o que mais pesa é a exigência da população. ''O nosso País é um País com muitas necessidades. Atendidas algumas, surgem outras. Então a possibilidade de renovar sempre é melhor.''
Sobre a possibilidade de disputar novos cargos ou até mesmo voltar ao Palácio Iguaçu, Lerner diz que descobriu que pode continuar propondo soluções para o País sem ter um mandato. ''Esse desafio de sempre propor, isso não me abandona. Quando eu fiz 60 anos, há alguns meses atrás (risadas) os amigos brincaram comigo: é sexagenário. E eu respondia: quem cria nasce todo o dia. Então, a folha de papel em branco me faz nascer todo dia. E eu acho que é isso que mantém o desejo de mudar as coisas, de criar. Isso não tem nada a ver com política, isso faz parte da vida de uma pessoa. Eu sempre vou ter isso comigo.''
Sobre a transição, o governador diz estar orgulhoso porque apesar das divergências políticas que tem com o governador eleito, conseguiu, junto com a equipe que assume em janeiro, construir uma transição ''de respeito, de interesse público e de maturidade''.

Folha - Quando imaginou seu plano de governo, era o Paraná de hoje que o senhor via?
Lerner - Em muitas coisas era e em muitas coisas ultrapassaram. Me lembro que quando fui candidato, eu desenhava o Estado e é muito gratificante ver que aconteceu aquilo que a gente tinha proposto. E tinha coisas que não estavam nem propostas, como a fábrica do agricultor, o NovoMuseu, a restauração dos cinemas, e isso tem uma dimensão nacional. O Paraná ultrapassou o poderio da sua agroindústria. Hoje é um pólo importante de alimento, de vestuário, de quase todos os setores da vida nacional. Então, muitas coisas foram crescendo durante o processo.

Folha - O senhor tem disposição para continuar na política?
Lerner - Veja, depois de ter sido três vezes prefeito de Curitiba, duas vezes governador, eu acho que tenho que dar um tempo. Eu dei a minha contribuição ao Estado e tenho tarefas importantes pela frente. Primeiro a presidência da União Internacional dos Arquitetos. É um órgão que tem 1,5 milhão de arquitetos em 102 países. Eu tenho uma responsabilidade. Fui eleito em Berlim com a proposta de promover uma ampla discussão das cidades de todo o mundo. E vou fazer isso. Segundo é voltar à minha atividade profissional, porque nada me desafia mais do que um papel em branco.
Folha - O presidente da República deu declaração de que reconhece que o número de pobres cresceu no País durante o governo dele. Como o senhor analisa a questão social aqui?
Lerner - Uma das coisas que mais me angustiam é enxergar que nós podemos fazer um grande avanço para resolver o problema das pessoas. E onde estão essas pessoas? Estão nas cidades. É na cidade que estão as respostas de qualidade de vida. A cidade é o refúgio da solidariedade. Então um País que encaminhar bem o problema da cidade vai resolver bem o problema das pessoas. Nossa equipe chegou a dimensionar como seria possível isso. O mais angustiante é ver que o que seria necessário para resolver todos esses problemas é muito pouco em relação ao que o País perde nesse cassino mundial da especulação financeira.

Folha - Nesse sentido o Paraná avançou?
Lerner - O Paraná avançou muito nesse sentido.

Folha - Como foi sua relação com o Legislativo nesses oito anos?
Lerner - Sempre boa, não só com o Legislativo como com o Poder Judiciário e com o Ministério Público. Sempre mantivemos uma relação de independência, um profundo respeito, harmonia. Foi a época em que o estado teve mais harmonia entre todos os poderes. E eu fico agradecido a todos aqueles que permitiram isso.

Folha - O que apagaria desse período?
Lerner - Alguns cabelos brancos (risadas).

Folha - Provocados por que motivo?
Lerner - Eu apagaria a falta de unidade e representação política do Estado.

Folha - Em oito anos o senhor deve ter passado por muitos momentos marcantes. Mas teve algum especial?
Lerner - São muitos. O dia da inauguração da primeira Vila Rural, o dia em que eu inaugurei a primeira Fábrica do Agricultor, o momento em que eu vi o Porto de Paranaguá exportando os carros produzidos aqui para os Estados Unidos, o Oscar Niemayer na inauguração do NovoMuseu.

Folha - Como se sente uma pessoa que, com a sua função, interfere na vida de tantas outras?
Lerner - Eu me sinto muito feliz. Estou vivendo momentos de muita alegria. A gente sabe que felicidade é um somatório. Cada um tem as suas dificuldades, seus momentos de alegria. Mas posso dizer que essa alegria que você tem quando vê algo que você fez ajudando tanta gente é um sentimento que vale a pena. Vale a pena você ver uma mulher em Irati dizendo quanto o programa Da Rua Para a Escola ajudou a vida dela. Vale a pena ver os vileiros numa Vila Rural. São cenas que não vão se apagar da minha memória. Mais que isso, compensam tantas dificuldades, sacrifícios, trabalho, viagens cansativas.

Folha - Como se sente ao deixar o governo?
Lerner - Nos próximos dias eu quero, cada vez mais, agradecer o povo do Paraná que me fez acreditar no quanto esse País é viável.

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