Oito dos 19 vereadores de Londrina respondem a processos por irregularidades ligadas ao exercício de cargo público, seja no Legislativo ou no Executivo. Alguns já foram condenados, mas, ainda seriam considerados elegíveis pelas normas da Lei da Ficha Limpa (Lei Complementar 135, de 2010), uma vez que são decisões de primeira instância e não de órgãos colegiados. Na última quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal (STF) começou a julgar as ações que devem definir se a Lei da Ficha Limpa é constitucional e se ela valerá para as eleições do ano que vem. O julgamento no STF foi interrompido por um pedido de vista, mas deve ser retomado nos próximos dias.
O campeão de processos é Joel Garcia (PP), que está no primeiro mandato, e responde a quatro ações por improbidade administrativa, seis ações penais - acusado de concussão, e a uma denúncia de compra de votos, pela qual já foi condenado em primeira instância pela Justiça Eleitoral. Na esfera cível, Joel já tem duas condenações da Justiça de Londrina: quando era presidente da Comissão de Justiça, ele teria ameaçado barrar projetos do Executivo se não obtivesse um cargo no Procon para a filha de um cabo eleitoral e também teria exigido que a empresa de hortaliças de sua família fosse contratada para fornecer produtos para a merenda escolar. Um dos processos - ainda sem sentença - é por manter assessora fantasma em seu gabinete.
Apesar disso, o vereador se diz inocente e defende a Lei da Ficha Limpa. ''Vou provar minha inocência no tribunal, onde os juízes estão menos sujeitos a influência e contaminação das emoções locais'', afirmou, lembrando que no começo da legislatura apresentou projeto de lei para instituir a Ficha Limpa municipal, norma para proibir pessoas com condenações em órgãos colegiados de assumir cargos comissionados na administração municipal. O projeto foi rejeitado pelos vereadores e arquivado. Uma nova versão da proposta, de autoria de Márcio Almeida (PSDB), tramita hoje na Câmara.
Em segundo lugar na lista dos processados está Rodrigo Gouvêa (PTC), que responde a três ações penais - duas por concussão e uma por peculato. Ele também é réu em três ações civis públicas. O vereador também foi alvo de uma Comissão Processante, mas acabou absolvido pelos pares. ''Fui vítima de armação. Eles queriam o meu mandato, mas nada fiz de errado'', disse. ''Por isso, sou sim favorável à Lei da Ficha Limpa.'' Rodrigo também exerce o primeiro mandato e foi acusado de cobrar propina de empresários para aprovar projeto de lei e manter funcionária fantasma em seu gabinete.
Jacks Dias (PT) é réu em dois processos penais por corrupção e concussão. As acusações são relativas ao período que foi secretário de Gestão Pública do ex-prefeito Nedson Micheleti. Em um dos casos teria exigido propina para manter contrato com a empresa que fazia o serviço de limpeza (concussão); no outro, teria aceitado suborno para beneficiar uma empresa da área de segurança (corrupção). O primeiro caso também lhe rendeu uma acusação de improbidade. ''Estou tranquilo quanto aos meus processos: acredito que serei inocentado ainda em primeira instância.'' Jacks, que é presidente da Comissão de Trabalho, Administração e Serviços Públicos, concedeu parecer favorável ao projeto da Ficha Limpa municipal. ''É algo necessário ao poder público.''
O vereador José Roque Neto (PR) também é réu em ação por improbidade administrativa pelo período em que ocupou interinamente o cargo de prefeito de Londrina, entre janeiro e abril de 2009. Padre Roque contratou, sem licitação, uma clínica para fazer mutirões de consultas médicas. ''Não me considero um 'ficha suja'. Acredito que serei absolvido porque contratei o serviço para ajudar a população.''
Em silêncio
A vereadora Sandra Graça (PP) responde a um processo penal e a uma ação civil pública por ter mantido em seu gabinete um funcionário fantasma durante a legislatura passada (2005-2008). Ele trabalhava em período integral em uma marcenaria, mas recebia como assessor parlamentar. Sandra não quis dar entrevista.
O pastor Renato Lemes (PP) também é processado criminalmente e na esfera cível. Ele é um dos nove vereadores, também da legislatura anterior, que teria recebido propina para aprovar alteração no Plano Diretor que permitiu a uma boate construir um motel ao lado do estabelecimento. O pastor também não deu entrevista. Os processos ainda não foram julgados.
A promotora de Defesa do Patrimônio Público, Leila Voltarelli, defensora da Lei da Ficha Limpa, acredita que este, porém, não é o único instrumento para barrar os políticos com maus antecedentes. ''A atenção do eleitor ao que acontece na política é um dos instrumentos mais importantes para tirar as pessoas desonestas da vida pública'', avaliou Leila. ''Às vezes, temos casos mais graves de corrupção que ainda não foram julgados e somente o eleitor pode barrar essas pessoas.'' A avaliação da promotora é corroborada pela situação política de Londrina. Na legislatura passada, somente um vereador envolvido no escândalo de cobrança de propina que envolveu mais da metade dos parlamentares reelegeu-se: Renato Lemes.

Imagem ilustrativa da imagem Quase metade dos vereadores de Londrina responde a processos