Quando a notícia desagrada, a culpa é da imprensa?

Analistas avaliam por que jornalismo profissional volta e meia é tratado por políticos como causa dos problemas que informa

Pedro Moraes - Grupo Folha
Pedro Moraes - Grupo Folha

Quando a notícia desagrada, a culpa é da imprensa?
Andre Coelho/Folhapress
 



Da sabedoria milenar chinesa, a frase do filósofo Confúcio sobreviveu aos séculos e se mantém válida: “uma imagem vale mais que mil palavras”. O gesto do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), retratado no sábado (8), em sua saída do Palácio da Alvorada, diz muito sobre sua relação com a imprensa. Irritado com a repercussão negativa de sua declaração feita sobre portadores do vírus da Aids, dias antes, o chefe do Executivo nacional fez o característico gesto de uma “banana” e afirmou que não daria entrevista naquele dia. “Vocês não podem continuar agindo assim, destruindo reputações. Vê se vai ter alguma retificação no jornal de vocês amanhã? Não vai ter porque o editor não vai deixar ir para frente. Eu quero conversar com vocês. Ser amigos de vocês. Mas não dá”, protestou. Em entrevista recente ao portal “Uol”, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou a afirmar que há críticas que o presidente faz aos veículos de comunicação “que são corretas”. Ambos acendem a questão sobre a qualidade da imprensa, mas por quê?

 

Do ponto de vista da Ciência Política, a divergência entre o poder e a imprensa é útil e tem papel preponderante para os processos da democracia. É o que defende o professor Bianco Zalmora Garcia, do departamento de Filosofia da UEL (Universidade Estadual de Londrina). “Esse embate entre o poder político constituído e a imprensa é saudável. O problema é quando esse poder político, para se blindar, tenta controlar ou colonizar essa imprensa. Não podemos esquecer que essa colonização também se dá pelo sistema econômico”, comenta o cientista, que compara o Bolsonarismo ao Lulopetismo. “Eles têm uma postura de demonizar a imprensa. Isso indica que ambas possuem postura autoritária travestida de um caráter populista. O problema não está no enfrentamento, no conflito e nos embates. O problema está nas tentativas de cerceamento e censura”, define.



 

Vez ou outra na história brasileira a relação entre os dirigentes do País com a imprensa azeda, quando não é alvo de graves reações e até, no limite, a censura. O período mais lembrado é o mais recente durante os governos militares na ditadura pós-1964. Mas, no Estado Novo imposto por Getúlio Vargas, e, mesmo em diversos governos nos primeiros anos da República, o trabalho da imprensa foi cerceado e publicações chegaram a ser empasteladas. Na opinião do autor do “Guia Politicamente Incorreto dos Presidentes da República”, o escritor Paulo Schmidt, a guerra não declarada prejudica a população. “Assim como o chefe da nação precisa entender que é papel da imprensa questionar e cobrar os políticos, especialmente ele, os jornalistas precisam parar de ver um retorno à ditadura na mera simpatia do presidente pelo regime militar”, defende Schmidt. “Se o Planalto cancela a assinatura de um jornal ou deixa de anunciar em uma emissora, esses órgãos falam em censura. Represália, sim, mas censura, de jeito nenhum”, opina.

 

MEMÓRIA

Quando a notícia desagrada, a culpa é da imprensa?
Bruno Rocha/Fotoarena/Folhapress
 


Se a imprensa trabalha de forma crítica e livre, os fatos que dependem da aprovação governamental ganharam um novo direcionamento, especialmente no que se chama de pauta de costumes. “O governo Bolsonaro apresenta ações de censura em várias frentes como a Educação e a Cultura. Já o governo lulopetista não chegou a esse ponto, embora manifestasse uma tentação de instituir formas de controle ideológico, mas não chegou ao que vivenciamos hoje com esse governo Bolsonaro”, compara o professor Bianco Garcia, que complementa sua análise aprofundando o papel da imprensa como parte fundamental da consciência da população. “O papel fundamental da imprensa, calcada na informação, é onde ser memória dos cidadãos. Em geral, criticam os cidadãos por não terem memória. Mas essa memória é juntamente o papel da imprensa”, afirma.

 

Em comum entre os governantes que costumam apontar sua irritação em direção à imprensa está a prática do populismo. Para Schmidt, os milhões de votos destinados nas eleições funcionam, na mente dos políticos, como uma espécie de carta branca. “Nessa relação instável de poderosos com a imprensa, há casos de autoritarismo puro e simples, como o presidente João Figueiredo, incapaz de tolerar críticas de jornalistas, uma vez que, no seu entender, a imprensa havia recuperado a liberdade graças a ele (o último ditador do regime militar) e deveria, portanto, agradecer-lhe, nunca o criticar”, lembra. Em uma memória recente, o autor recorda do episódio que o ex-correspondente do New York Times, Larry Rother, que escreveu em matéria que Lula supostamente abusava do consumo de bebidas alcoólicas. “Criticado por um correspondente estrangeiro, Lula tentou extraditá-lo, além de prometer controle da mídia em um eventual terceiro mandato que não ocorreu”, opina.

 

VASSOURA

Outro presidente lembrado por seu comportamento, e que é alvo de comparações a Bolsonaro, é o intempestivo Jânio Quadros. Ele tinha o hábito de encaminhar bilhetes às repartições públicas, substituindo os despachos oficiais que cabiam ao chefe da República. “Da mesma forma, Bolsonaro trocou pronunciamentos em cadeia nacional por ‘lives’ em redes sociais. Jânio se deixava fotografar comendo sanduíche na rua, Bolsonaro divulgou fotos suas lavando roupa. Jânio adotou como símbolo a vassoura, para varrer a corrupção; fazendo ‘arminha’ com a mão, Bolsonaro simbolizou sua luta contra a criminalidade”, compara Schmidt. Que vai mais longe: “A pouca paciência com jornalistas foi comum a ambos, e as ‘forças terríveis’ às quais o Homem da Vassoura atribuiu sua queda lembram as conspirações que o Homem do Revólver frequentemente enxerga ao redor”, conclui.

 

Federação de Jornalistas acredita que trabalho não é livre de críticas, mas vê estratégia do governo em promover desinformação


O trabalho da imprensa não é livre de críticas. É o que defende a própria Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas). A presidente da instituição, Maria José Braga, no entanto, afirma que os ataques provenientes do governo Bolsonaro não são espontâneos e funcionam como uma estratégia para substituir a comunicação de seus caminhos tradicionais. “O movimento vem descredibilizando a imprensa e é feito de forma genérica e generalizada. A ideia é fazer com que os seguidores políticos descartem a imprensa formal. O objetivo é deixar a população desinformada”, avalia.


Há ainda uma crítica relativa à própria população que, apesar de mais exposta às informações por meios da mídia eletrônica e da própria internet, vem apresentando uma piora nas condições da avaliação do que recebe. “Muitas pessoas passam a acreditar no que leem nas redes sociais sem avaliar especificamente a origem ou a importância necessária da informação no determinado momento”, afirma Braga.


A dirigente ainda aponta que a Fenaj é favorável desde a elaboração da Constituição de 1988 da formação de um conselho nacional, um órgão de acompanhamento do trabalho da imprensa. “Há vários modelos em todo o mundo que avalia os conteúdos que são produzidos e observam regras estabelecidas, como, por exemplo, as que evitam a exploração da miséria humana”, cita. Algumas vezes o tema já foi levantado, mas há sempre o questionamento a respeito de censura e de um possível controle por parte do estado, por isso, não vai à frente.


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