Quadro eclético de profissões nas eleições de outubro
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sábado, 16 de agosto de 2008
Gabriel Manzano Filho<BR>Agência Estado 
São Paulo - Longe vão os tempos em que entrar na política era um luxo de empresário, fazendeiro, médico e advogado. Uma listagem do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com as ocupações dos quase 380 mil brasileiros que concorrem a algum cargo em outubro revela que uma multidão de menos votados - quase nunca votados - decidiu entrar no jogo.
São padeiros, vigilantes, manicures, garçons, motoboys, funileiros, frentistas de postos, faxineiros e dezenas de outras profissões - gente que os partidos sempre ignoraram e que procuraram as zonas eleitorais e preencheram uma ficha, em busca de uma vaga de prefeito, vice ou vereador nas 5.560 cidades brasileiras.
A lista de mais de 180 ocupações aparece quase integralmente entre os 15.331 concorrentes a prefeito. Ela inclui 10 barbeiros, 8 taxistas, 6 vigilantes, 24 motoristas particulares, 3 padeiros, 2 pescadores, 24 motoristas particulares, 1 motoboy, 1 lavador de carros, l frentista de posto, 2 bailarinos e 1 cozinheiro. Mais 847 definiram sua ocupação no campo ''outros''.
Já entre os 348.530 candidatos a vereador, há 558 motoboys. Ao lado deles, 83 lavadores de carro, 11 flanelinhas, 273 faxineiros, 199 garis, 36 coveiros e 60 catadores de recicláveis - o pessoal que recolhe papelão e madeira em lixeiras e caçambas, puxando uma carroça com a força dos braços. Essa babel de conquistados pela política formal tem ainda artista de circo, manicure, recepcionista, atendente de lanchonete e até guardador de carro. Diante de tanta variedade, o TSE não tem idéia do que fazem mais 39.624 cidadãos que se definiram como ''outros''.
''Há, de fato, uma disseminação impressionante das ocupações, entre essas centenas de milhares de pré-candidatos'', diz o cientista político Francisco Foot Hardman, da Unicamp. Para ele, esse processo vem crescendo, devagarinho. Mesmo antes da Constituição de 1988 as eleições para governador e prefeito das capitais ''marcaram a entrada, na cena política, de novos atores, tanto dos movimentos sociais quanto de partidos não previstos inicialmente''. Para o historiador Marco Antonio Villa, da Unesp, ''é possível pensar em uma democratização das candidaturas''. Ele a atribui, em parte, ''ao grande número de partidos com registro no TSE''.
No conjunto, é claro, esses recém-chegados ainda não são páreo para os concorrentes tradicionais. Na corrida às prefeituras, por exemplo, o cenário continua habitado por levas de advogados (809), empresários (1.447), médicos (979), professores (812) e comerciantes (1.380), além dos 2.094 prefeitos que buscam a reeleição. E buscam uma cadeira nas Câmaras Municipais 10.229 empresários, 5.454 advogados, 2.451 médicos e 17.569 vereadores em busca de mais quatro anos. A presença das estruturas sindicais aparece no grande número de trabalhadores de construção civil (2.968) e de agricultores (8.119). A lista não esclarece, no entanto, quantos destes últimos são grandes proprietários rurais, pequenos lavradores ou empregados.
Mas é um cenário bem diferente do que existia quatro ou cinco décadas atrás. Um país que, no início dos anos 60, tinha cerca de 15 milhões de eleitores saltou para 125,9 milhões - praticamente um de cada sete cidadãos. Esse número de candidatos não é definitivo: muitas candidaturas acabam indeferidas pelos juízes eleitorais, quando estes aplicam no interessado um teste de escolaridade. ''E é preciso ver quem vai vencer as eleições'', adverte Villa. ''Pode ser que os vencedores excluam as profissões com menor escolaridade.''


