PTB ameaça romper aliança com FHC
Senador José Eduardo critica condução da política econômica e suspende negociações para apoiar reeleição de FHC
Agência Estado
Arquivo FolhaCorreção de rota
José Eduardo: críticas generalizadas e proposta de novo rumo A coligação de cinco partidos que apoiariam a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso sofreu hoje a sua primeira baixa. O PTB suspendeu até o dia 30 as negociações com o PSDB sobre a aliança para a eleição presidencial deste ano. Se o PTB ficar fora da aliança, o presidente Fernando Henrique perderá quatro minutos e meio no programa eleitoral gratuito.
O presidente nacional do PTB, senador José Eduardo Andrade Vieira (PR), revelou ontem que na semana passada foi procurado pelo candidato do PPS à Presidência, Ciro Gomes. ‘‘Ele quer o nosso apoio’’, disse José Eduardo. ‘‘O PMDB do deputado Paes de Andrade (dissidente, que deseja uma candidatura própria a presidente) também está em negociações com o PTB’’, contou. Ele disse que não vê nenhuma diferença ideológica entre o presidente Fernando Henrique e Ciro Gomes. ‘‘São iguais.’’ Segundo o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), apesar das negativas de José Eduardo, o petebista deseja ser o vice de Ciro.
Andrade Vieira afirmou que o PTB tende a apoiar um candidato que tenha, em seu programa de governo, instrumentos que possibilitem uma arrancada do País. ‘‘Fui ministro e sei que o Brasil tem condição tranquila de crescer até 12% ao ano, imediatamente.’’ Por enquanto, segundo ele, nenhum dos três candidatos - Fernando Henrique, do PSDB, Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, e Ciro Gomes, do PPS - tem proposta que possa atrair o PTB.
De imediato o partido exige uma queda drástica nos juros, reforma agrária municipalizada, incentivos às exportações, como ocorre nos Estados Unidos e na Europa, restrição às importações e aumento do emprego. José Eduardo jantou com o presidente Fernando Henrique na segunda-feira, ouviu deste um apelo para se integrar à campanha da reeleição, mas recusou o convite. Na terça-feira, o presidente ligou para José Eduardo e disse que tinha gostado muito da conversa do jantar. ‘‘Fiquei bastante sensibilizado’’, contou o senador.
No encontro com Fernando Henrique, o presidente do PTB fez críticas à política de juros do governo. José Eduardo era o dono do Banco Bamerindus, liquidado pelo Banco Central, que foi vendido para o inglês HSBC. Até hoje o senador não se conforma com a perda da instituição financeira. Ele jurou que na conversa com o presidente Fernando Henrique não falou de suas questões pessoais. ‘‘Nunca pedi nada ao presidente nem aos seus ministros’’, afirmou.
As críticas à equipe econômica, no entanto, foram muitas. O presidente teria perguntado a José Eduardo se ele achava que havia problemas no câmbio. ‘‘Respondi que ele (o presidente), quando foi ministro da Fazenda, sabia muito bem o que era o custo Brasil para as nossas exportações’’, disse o senador. ‘‘Então, como presidente, ele sabe muito bem o que está ocorrendo na economia.’’
O senador contou ter perguntado ao presidente qual era o percentual da taxa de juros no exterior. ‘‘Ele respondeu que é de cerca de 7% ao ano.’’ Então, segundo o senador, o presidente ouviu esta observação: ‘‘Concordo que os juros têm de ser mais altos que os internacionais, até 50%, mas 21% de juros é 300% acima da taxa internacional.’’ Ontem, José Eduardo acrescentou que juros nestas alturas são imorais, absurdos.
Ele disse ainda ao presidente Fernando Henrique que defende a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o Banco Central. ‘‘Acho que uma CPI abriria a caixa preta do Banco Central e poderíamos saber como eles agem, que critérios adotam’’, afirmou. ‘‘Com a CPI, o presidente saberia o que é o Banco Central.’’ José Eduardo disse que os critérios dos economistas nunca são esclarecidos, nem para o governo: ‘‘Outro dia li que o interventor do Banco Central no Bamerindus liberou R$ 800 milhões para o HSBC’’, continuou. ‘‘É dinheiro que nunca vi na vida e olha que sempre fui banqueiro.’’
O deputado Sérgio Carneiro (PDT-BA) iniciou ontem a coleta de assinaturas para a instalação de uma CPI do Banco Central e das contas de campanha política. Mesmo que consiga o número suficiente de assinaturas para a CPI - 171 - é improvável que ela seja instalada. O Congresso terá funcionamento precário a partir da próxima semana, por causa da Copa do Mundo e das eleições.

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