Quatro anos após o final da primeira experiência, Londrina volta a ter, a partir de 1º de janeiro, o PT na administração municipal. No intervalo entre um governo e outro, o município viveu uma administração que pode ser considerada desastrosa em vários aspectos: político, por exemplo, com a cassação e o afastamento do prefeito Antonio Belinati (PFL) e os escândalos de corrupção investigados pelo Ministério Público (MP); e econômico – a prefeitura vive hoje uma das piores crises orçamentárias, com um déficit mensal de R$ 3 milhões, e a cada mês o pagamento dos salários de servidores é um drama.
Para enfrentar o desafio de superar os problemas e a crise política, o londrinense escolheu ontem um bancário, Nedson Micheleti, 42 anos, para ser o prefeito. Funcionário da Caixa Econômica Federal, casado, pai de dois filhos, Nedson pregou durante toda a campanha exatamente o oposto do que se viu nos últimos anos: um governo ético, honesto e participativo. ‘‘Pelo bem da cidade’’, propagandeou o jingle de sua campanha. ‘‘Não temos vínculo nem com Fernando Henrique (Cardoso – PSDB, presidente da República), nem com Jaime Lerner (PFL, governador), nem com essa história de assalto aos cofres da nossa cidade’’, disse em entrevista à Folha ainda em julho, no começo da campanha.
Nedson nasceu em Rolândia, em 1958, e chegou a Londrina 18 anos depois para ser seminarista no Instituto Paulo VI, onde cursou Teologia e se formou em Filosofia. Desistiu de ser padre, mas descobriu a vocação política com a Teologia da Libertação, do frei Leonardo Boff, e também com a atuação nas pastorais Operária e da Juventude.
Em 1980, foi contratado para trabalhar no Banco Noroeste (hoje Santander). No ano seguinte ingressou na Caixa, por meio de concurso público, e imediatamente se envolveu no movimento sindical. Foi secretário-geral do Sindicato dos Bancários de Londrina e presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Norte do Paraná.
Ainda no início da década de 80 ajudou a fundar o PT em Londrina e nunca mudou de partido. Exerceu a presidência do diretório local várias vezes e integrou o diretório nacional. Hoje é presidente do diretório estadual, tendo se licenciado para concorrer à prefeitura. Também teve uma experiência na administração municipal do PT, de 93 a 96: foi presidente da Companhia de Habitação (Cohab), onde aprimorou a experiência da Caixa na área de habitação e urbanismo.
Antes da eleição para prefeito, Nedson já tinha cumprido um mandato de quatro anos como deputado federal. No período, foi indicado representante do Parlamento na Conferência Mundial sobre Assentamentos Humanos da ONU (Habitat II), realizado em Istambul. Em 98, foi indicado pelo partido para ser o candidato a senador pelo Paraná. Concorrendo com personagens fortes da política estadual, como o ex-governador Alvaro Dias (PSDB), perdeu a eleição; mas obteve quase 1 milhão de votos e se fortaleceu como liderança política.
No início da campanha deste ano, pouca gente apostava na vitória do petista. Ele começou a corrida eleitoral em último lugar, com menos de 5% de intenções de voto. Mais uma vez, concorreu com ‘‘pesos-pesados’’, como o ex-prefeito Luiz Eduardo Cheida (PMDB) e o deputado federal Luiz Carlos Hauly (PSDB) – líder em todas as pesquisas e que acabou ficando fora do segundo turno.
A campanha de Nedson foi atípica, sem comícios, sem comitês eleitorais e com pouco dinheiro. Tudo na base da ‘‘sola do sapato’’, como gostava de dizer o candidato. O corpo a corpo e o evidente desejo de mudança do eleitorado deram resultado: Nedson terminou a disputa do primeiro turno em primeiro lugar, com 27,24% dos votos. No final da apuração, ele também conseguiu o apoio de todos os derrotados, inclusive do empresário Farage Kouri, que concorreu pelo PFL com o apoio do prefeito cassado Antonio Belinati.
O grande desafio de Nedson Micheleti como prefeito de Londrina, segundo o que ele próprio declarou durante a campanha, é implantar no município um governo participativo, envolvendo a cidade na definição dos rumos da administração. Foram eleitos cinco pontos principais: justiça social, cidadania, questões urbanas, gestão da máquina pública e desenvolvimento econômico. ‘‘Não quisemos fazer uma campanha com propostas pontuais, mas assumir um ponto de vista multidisciplinar, que envolva as questões da região, da cidade’’, disse.
Dentro dessa visão multidisciplinar, um dos principais projetos do novo governo é a chamada ‘‘rede de cidadania’’, levando ações integradas para todas as regiões do município. ‘‘É uma coisa barata, simples, e que integra as pessoas nas questões de cidadania, de cultura, participação’’, disse. Projetos como a bolsa escola e o orçamento participativo, ‘‘estrelas’’ da adminstração petista, também deverão ser implantados no município.