PT vai às urnas e eleição testa poder de Dirceu
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sábado, 17 de setembro de 2005
Guilherme Evelin e Mariana Caetano<br> Agência Estado 
Brasília - O PT traiu a promessa feita a 53 milhões de brasileiros de que era um partido diferente. Hoje, 825.461 filiados desde que com suas contribuições partidárias em dia estão convocados a vencer o desalento e começar a acertar suas próprias contas depois do dilúvio. Irão às urnas hoje em eleições diretas para escolher a nova direção do partido e seu presidente.
Por causa da crise, o grau de comparecimento é uma incógnita. Quem provavelmente vai ter de pagar a fatura é o Campo Majoritário, grupo moderado à frente do PT há 10 anos, forjado por influência direta do ex-chefe da Casa Civil e deputado José Dirceu, e ao qual estão ligados os protagonistas do escândalo do mensalão.
Primeiro presidente eleito pelo voto direto no PT, Dirceu em 2001 alcançou 55,6% dos votos e a chapa do Campo para o Diretório Nacional, 51,7%. Agora, nas previsões mais otimistas de seus dirigentes, o grupo vai levar pouco mais de 40% dos votos para o diretório e para Ricardo Berzoini, escolhido candidato a presidente depois que José Genoino foi abatido pelo escândalo e Tarso Genro renunciou à disputa. Desistiu porque Dirceu e outros acusados recusaram-se a deixar a chapa.
Pior do que talvez perder a presidência Berzoini pode ter de encarar um segundo turno contra a união da esquerda em outubro , a quebra da maioria obrigará o futuro comando a negociar com afinco os rumos do partido. É possível que maiorias diferentes sejam formadas a cada decisão. Acabaria o ciclo em que as reuniões do diretório serviam para homologar resoluções acertadas na véspera pelo Campo. Isso ocorria com auxílio de correntes de centro ou centro-esquerda como Movimento PT, PT de Luta e de Massa e Ação Democrática, somando vitórias com mais de 60% nas votações, enquanto a esquerda esperneava e tentava fincar posição. Hoje, nenhuma corrente quer aparecer associada à antiga maioria.
MUDANÇA NA TÁTICA - A tática do rolo compressor foi implementada por Dirceu, mas garantiu o crescimento do PT e seu maior beneficiário foi o presidente Lula. Hoje ele se diz traído, sem revelar por quem.
''Vamos ter de propor um grande acordo para estabelecer um novo tipo de relação no partido. O PT não pode se dar ao luxo de se dividir no momento atual'', diz Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência e um dos dirigentes do Campo Majoritário, ao sinalizar para a necessidade de abrir canais de diálogo com a esquerda petista. ''Quero dialogar com todos os setores do partido independentemente do porcentual de votos que o Campo alcançar'', promete Berzoini se levar a presidência petista.
Dirceu jurou que não assumirá mais qualquer cargo na direção do PT, seja qual for o resultado do processo de cassação que enfrenta na Câmara. Na última reunião do diretório, contudo, estava lá. Trabalhou duro para derrotar Tarso, seguir na chapa do Campo e influenciar o processo de depuração interna da legenda, que até hoje não conseguiu expulsar o ex-tesoureiro Delúbio Soares e identificar e punir seus cúmplices.
Aliados do ex-ministro alertam que seu poder de influência não pode ser subestimado, mas até eles duvidam de que Dirceu continuará a dar as cartas no PT depois do Processo de Eleições Diretas (PED). ''Dirceu foi um símbolo da transformação de um partido de quadros em um partido de massas. Era uma referência para o PT, que se diluiu depois do escândalo'', diz um parlamentar ligado a ele.
O enfraquecimento do Campo Majoritário deve ampliar as tensões entre o partido e o governo. Lula, possivelmente, ouvirá mais críticas e palpites do que gostaria da cúpula petista. Embora com divergências no tom e na intensidade, uma maior autonomia do PT em relação ao Planalto é discurso de campanha comum às dez chapas inscritas para o Diretório Nacional e aos sete candidatos à presidência do partido (procurado pela Agência Estado, o candidato da chapa Movimentos Populares, Luiz Gonzaga da Silva, o Gegê, não deu entrevista porque está com prisão decretada pela Justiça). A ortodoxia da política econômica será o primeiro alvo. Até os maiores defensores de Lula na campanha interna, Berzoini e Maria do Rosário, do Movimento PT, cobram mudanças.


