Brasília - O baixo valor do novo salário mínimo, fixado em R$ 260, provocou no PT o sentimento de desencanto amplo, geral e irrestrito em relação ao rumos do governo Lula. Depois de muitas reuniões, a cúpula petista apoiou sem meias palavras a política econômica conduzida pelo ministro da Fazenda, Antônio Palocci Filho, mas agora enfrenta cobranças sobre as promessas do ''Lulinha paz e amor'' da campanha de 2002. Pior: ainda não sabe como administrar o estoque de frustração de expectativas a cinco meses das eleições para escolher prefeitos e vereadores.
Sem forças para evitar o que os radicais chamam de ''paloccismo'', a direção do PT garante que vai reivindicar medidas mais rápidas para a promoção do desenvolvimento, com programas que resultem efetivamente em geração de empregos. Na prática, o partido dá um voto de confiança a Palocci, mas odeia o secretário do Tesouro, Joaquim Levy. Até em reuniões de governo já foi dito que Levy, defensor do Estado mínimo, é ''conservador demais'' e trava liberações de verbas para investimentos.
O ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu que presidiu a sigla durante oito anos , engrossa o time dos desenvolvimentistas desencantados. ''Eu fui derrotado dentro do governo'', disse ele, recentemente, a um importante interlocutor. Desde o escândalo provocado por Waldomiro Diniz o subchefe da Casa Civil flagrado pedindo propina a um bicheiro , Dirceu perdeu batalhas para Palocci, considerado o novo homem forte. Na lista de suas derrotas está o projeto de lei das agências reguladoras, menos intervencionista do que ele gostaria.
Preocupados com o desgaste na opinião pública, governo e partido preparam-se para ''recalcular'' as metas apresentadas na campanha. O ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, já admite que não é possível dobrar o valor do mínimo em quatro anos, como prometeu Lula na campanha. ''Não vamos vender ilusão'', diz o ministro. Pelas suas contas, a proposta explodiria os gastos da Previdência, aumentando as despesas em cerca de R$ 40 bilhões por ano.
Petistas graduados falam agora em ''programa criativo de recuperação do mínimo'' até o fim do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006. O termo pomposo consta até mesmo da resolução do diretório nacional, mas, concretamente, não se sabe o que significa. ''Para aumentar o salário mínimo é preciso mais crescimento econômico'', simplifica Berzoini. ''Se o PIB cresce, os empregos formais aumentam e melhora a arrecadação da Previdência.''
O presidente do PT, José Genoino, garante que a aposta na política macroeconômica trará dividendos para o País, mesmo que o partido pague o preço do rígido ajuste fiscal nas eleições municipais de outubro. Na sua avaliação, o PT se rendeu à ''força da realidade''.
Em meio a esse debate nervoso, o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação do Governo (Secom), Luiz Gushiken o mais ''zen'' da Esplanada , é um dos que se empenham na construção de um projeto de planejamento estratégico. ''Nas situações de instabilidade e de crise as pessoas só pensam no presente, mas é nesses ambientes que são produzidas as melhores ações e os grandes faróis.''

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