A crise financeira internacional obrigou o PT a rever a sua antiga proposta de desvalorizar o real. ‘‘Hoje, a desvalorização seria um tiro na cabeça’’, disse ontem em Brasília o presidente PT, José Dirceu, imitando com a mão o disparo de um revólver contra o próprio crânio. A solução que o partido do candidato da frente das esquerdas à presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva apresenta é a centralização e o controle temporários do câmbio - a mesma proposta feita pelo economista Paul Krugmann e que foi adotada esta semana pelo governo da Malásia.
Dirceu contrapôs o controle e a centralização do câmbio ao receituário emitido e preconizado vigorosamente pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para casos semelhantes - que prevê a elevação dos juros, o corte dos gastos e o aumento dos impostos. Mesmo sem mencionar Paul Krugmann, o presidente do PT e Marco Aurélio Garcia, coordenador da campanha de Lula, citaram os argumentos que o economista está utilizando em defesa do controle do câmbio. ‘‘Nós precisamos abrir espaço para crescer e isso só será possível se o País reduzir a taxa de juros’’, afirmou. ‘‘E para reduzir os juros é necessário desvinculá-lo do câmbio’’, receitou.
‘‘A idéia básica é impedir que os capitais especulativos - e flutuantes - e de curto prazo tenham menos mobilidades do que atualmente’’, disse Roberto Amaral, dirigente do PSB, que também participou da entrevista. ‘‘Vamos atuar sobre os anexos’’, acrescentou Marco Aurélio, numa referência ao Anexo 4, por onde ingressa o dinheiro estrangeiro que vai para as bolsas de valores e para as aplicações de renda fixa. ‘‘Vamos fechar os ralos por onde sai o dinheiro’’, sintetizou José Dirceu.
O presidente nacional do PT rechaçou a possibilidade de moratória e fez questão de dizer que se Lula for eleito honrará todos os contratos e acordos de dívidas do País. ‘‘Não daremos calote’’, garante José Dirceu. O PT promete também reduzir ou acabar as chamadas importações supérfluas feitas pelo Brasil. ‘‘Nós vamos impedir a entrada de comida para gatos, por exemplo’’, disse Marco Aurélio. ‘‘As tarifas de importação dos supérfluos serão elevadas’’.
A análise feita pelos dirigentes do PT é semelhante à feita pela equipe econômica do governo federal. Ou seja, todos consideram que a crise financeira é mundial. Mas o PT acha que esta é a crise final do modelo neoliberal idealizado pelo chamado ‘‘consenso de Washington’’ e que, no Brasil, estaria sendo adotado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. ‘‘Esta crise é mundial, mas é diferente daquela da 1929’’, explicou o ex-prefeito Tarso Genro. ‘‘Agora estamos presenciando o esgotamento do modelo neoliberal’’.
Para José Dirceu, o presidente Fernando Henrique Cardoso vive na atualidade uma situação classificada pelo petista de ‘‘uma ambiguidade’’ na direção do País. ‘‘Ele sabe que terá que adotar medidas duras para enfrentar a crise, mas ao mesmo tempo não deseja adotá-las porque a população será penalizada e não aceitará o remédio’’, afirmou. ‘‘Fernando Henrique vai viver essa ambiguidade até o dia 4 de outubro’’.Arquivo FolhaPromessaJosé Dirceu: ‘‘Vamos fechar os ralos por onde sai o dinheiro, mas não daremos calote’’Ribamar Oliveira
e Marcelo de Moraes
Agência Estado

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