A coordenação da campanha do candidato da frente de oposição à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), propôs ontem a destituição imediata da equipe econômica do presidente Fernando Henrique Cardoso. Reunidos na sede do PT, em São Paulo, Lula, o candidato a vice Leonel Brizola (PDT), economistas e integrantes da frente de esquerdas avaliaram que o governo não preparou o País para enfrentar a crise do mercado internacional e, assim, o Brasil corre o risco de sofrer um ataque especulativo.
‘‘O governo está demonstrando que não tem competência para gerenciar essa crise e o mercado financeiro internacional não confia mais na equipe econômica, que está desgastada e dando sinais de incompetência’’, afirmou Guido Mantega, professor da Fundação Getúlio Vargas e um dos elaboradores do programa de governo do candidato petista. ‘‘Portanto, o melhor caminho é a substituição da equipe e do governo que lhe dá sustentação.’’
‘‘É essencial para o Brasil mudar o governo’’, reforçou Brizola. Segundo ele, ‘‘a equipe econômica não tem mais credibilidade para permanecer’’.
Os coordenadores da campanha apontaram contradições nas recentes declarações do ministro da Fazenda, Pedro Malan, e do presidente do Banco Central, Gustavo Franco, sobre o anúncio de um programa fiscal após as eleições e o ingresso de capital externo. ‘‘Há um mês o presidente do BC anunciou que não ia tolerar a entrada de capital especulativo’’, lembrou a economista e deputada federal Maria da Conceição Tavares (PT-RJ). ‘‘E agora baixa medidas para atrair os recursos externos’’, disse.
Conceição referiu-se às alterações anunciadas pelo BC na segunda-feira, entre elas o recuo do governo, ao permitir que os recursos captados por meio da Operação-63 ‘‘caipira’’ (empréstimos externos direcionados à agricultura) sejam aplicados integralmente em títulos cambiais.
Brizola traçou um paralelo entre o atual momento e a época que antecedeu a crise econômica mexicana, em dezembro de 94, comparando FHC ao então presidente do México, Carlos Salinas. ‘‘Não há a menor dúvida de que o atual governo se encontra numa situação parecida com a do governo Salinas’’, afirmou. ‘‘Ele era um Deus em matéria de condução econômica e levou o México àquele desastre.’’
Conceição classificou a política econômica de FHC de ‘‘insana e irresponsável’’. ‘‘O governo está levando o País a uma crise cambial’’, alertou. Ela defendeu medidas punitivas contra os especuladores e um maior controle sobre o câmbio e a entrada de capitais. ‘‘Nós estamos como um navio num mar revolto’’, comparou. ‘‘Devemos fechar as escotilhas para não afundar.’’
A equipe de Lula classificou as medidas tomadas pelo BC na segunda-feira de ‘‘paliativas’’. Para o economista da Unicamp Luciano Coutinho, também assessor do candidato petista, ‘‘a equipe econômica está empurrando a crise com a barriga, ao tomar medidas de curto prazo.’’
Na opinião de Theotonio dos Santos, economista do PDT e da Universidade Federal Fluminense, ‘‘o real está ameaçado gravemente pela insistência em uma política econômica que está colocando o Brasil na bola da vez mundial’’. Ele afirmou que ‘‘em qualquer governo sério esta equipe econômica já teria caído’’. Para o presidente nacional do PT, José Dirceu, o momento atual é ‘‘gravíssimo’’ e a equipe econômica está ‘‘absolutamente sem rumo’’.
O economista Guido Mantega adiantou que a proposta de quarentena para o capital especulativo pode ser colocada em prática por um eventual governo de esquerda. Entretanto, ele ressalvou que esse tipo de mecanismo não deve ser utilizado em um momento de turbulência e de fuga de capitais como o atual.

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