Brasília - Depois da expulsão dos radicais, marcada para hoje, o PT quer enquadrar as facções à esquerda no mosaico ideológico de tendências que se aglomeram no partido desde sua fundação, em 1980. Na prática, mais do que um embate sobre a reforma da Previdência, o expurgo da senadora Heloísa Helena (AL) e dos deputados Luciana Genro (RS), João Batista de Araújo (PA), o Babá (PA), e João Fontes (SE) tem por trás as discordâncias sobre a forma de governar desde que o PT vestiu o figurino de centro, ainda na campanha eleitoral.
''Estamos começando a ficar preocupados: não vamos mais tolerar dissidências permanentes nem partido dentro do partido'', diz o secretário de Organização do PT, Sílvio Pereira, numa referência aos atritos entre as facções internas. Pereira é um dos que falarão contra os rebeldes hoje, no segundo e último dia da reunião do Diretório Nacional. ''A pior coisa numa legenda é quando os ataques vêm de dentro'', completa o presidente do PT, José Genoino.
Atualmente, cerca de um terço dos 93 deputados petistas escancara sua insatisfação com os rumos do partido e do governo para quem quiser ouvir. É o chamado ''Grupo dos 30'', que deu trabalho na reforma da Previdência. A cúpula moderada nega que esteja em curso uma caça às bruxas, mas avisa que o PT não mais admitirá indisciplina em suas bancadas na Câmara e no Senado.
''Se continuar assim, o presidente Lula não vai mais precisar de adversários'', ironiza Genoino. Ex-radical, ele diz estar tranquilo, apesar de aborrecido com o clima ruim no partido sob sua administração.
Na tentativa de contornar o desgaste, Genoino anuncia que em 2004 promoverá vários seminários. Na lista dos planos está uma conferência nacional para unificar o discurso dos petistas na eleição municipal, a primeira depois da vitória de Lula.
''O problema é que há uma crise de legitimidade nas posições do PT'', reclama o deputado federal Ivan Valente (SP), da tendência Força Socialista. ''As decisões do encontro de Olinda, em dezembro de 2001, foram totalmente violadas pela Carta ao Povo Brasileiro.''
A queixa de Valente é repetida por todas as alas mais à esquerda no PT. Motivo: o texto a que ele se refere, de junho do ano passado, representa uma verdadeira guinada do partido. É na Carta que o então candidato Lula se compromete a honrar todos os contratos, trabalhar pelo equilíbrio fiscal e fazer superávit primário ''o quanto for necessário'' para tirar o País da crise.
Redigido pelo prefeito Celso Daniel um mês antes de seu assassinato, o documento com as diretrizes do programa de governo de Lula, aprovado no encontro de Olinda, era tão radical que foi batizado de ''A ruptura necessária''. Um dos seus motes era ''denunciar'' o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

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