São Paulo - As denúncias sobre um suposto esquema de propina na prefeitura de Santo André foram o primeiro teste para a superestrutura montada pelo PT para proteger seu candidato à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, dos torpedos de campanha. Na noite de quinta-feira, quando foi informada do depoimento bombástico do médico João Francisco Daniel - irmão do prefeito assassinado Celso Daniel -, a ‘‘equipe do candidato’’ ligou para o grupo de ‘‘análises especiais’’ que, por sua vez, chamou o ‘‘comando jurídico’’. O telefone sem fio não parou aí: para apagar o incêndio, foram acionados o setor de ‘‘subsídios’’ e, ainda, o de ‘‘fatos políticos’’.
Todas essas seções interligadas sustentam a coordenação da campanha de Lula. Só depois de consultá-las seu staff chegou à conclusão de que o PT deveria dar uma resposta política ‘‘dura e imediata’’, por meio de notas à imprensa e pedido de CPI na Câmara Municipal. Lula foi orientado a falar apenas sexta-feira, quando disse que a denúncia faz parte ‘‘do terrorismo do governo’’ contra o processo eleitoral.
A ‘‘equipe do candidato’’ é coordenada por Gilberto Carvalho, citado por João Francisco como o homem que teria entregue R$ 1,2 milhão ao presidente do PT, deputado José Dirceu (SP). Amigo de Lula, o ‘‘igrejeiro’’ Carvalho - como é conhecido por sua ligação com as comunidades eclesiais de base - diz que há cerca de 20 dias promotores ‘‘vasculharam’’ a prefeitura de Santo André. ‘‘Sabia que viria uma tempestade para cima do PT, mas nunca imaginei que o João Francisco fosse capaz de dar um depoimento tão inverídico.’’ O torpedo caiu justamente no dia em que o PT fechou a coligação com o PL e apresentou o senador José Alencar (MG) como vice de Lula.
Em conversas reservadas, petistas contam que Carvalho -ex-secretário-geral do PT - foi enviado à prefeitura de Santo André, em março de 97, porque a cúpula petista estava preocupada com irregularidades cometidas por assessores de Daniel na área de transportes. Ele teria dito que não conseguia coibir o esquema sozinho. Carvalho assumiu a secretaria de Comunicação e, depois, a de Governo.
Atualmente, ele é uma espécie de chefe de gabinete da campanha. A coordenação cabe a Dirceu. Um exército de 30 pessoas vai trabalhar diretamente com Lula, municiando-o com informações de todo tipo, principalmente econômicas e políticas, com análises especiais e vários briefings por dia.
O responsável pelo grupo de ‘‘subsídios’’ é o economista José Graziano da Silva, que assina o programa Fome Zero. É ele que corre atrás de material e especialistas para preparar o candidato. ‘‘Não vamos deixar buraco em nenhuma área’’, avisa Sílvio Pereira, secretário de Organização do PT e chefe do Núcleo de Acompanhamento dos Estados.
O time encarregado de criar ‘‘fatos políticos’’ é capitaneado pelo líder do PT na Câmara, João Paulo Cunha (SP), que analisa torpedos e contratorpedos.

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