PT pode perder 8 parlamentares após eleições
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sábado, 03 de setembro de 2005
João Domingos eGilse Guedes<br> Agência Estado 
Brasília - Um grupo de pelo menos seis deputados e três senadores pode deixar o PT logo depois das eleições internas do partido, marcadas para o dia 18. Caso o Campo Majoritário (que hoje manda no PT) vença a disputa, a maioria dessa turma migrará para o PSOL da senadora Heloísa Helena (AL), PDT ou mesmo para o PSB. O prazo para os que desejam se candidatar no ano que vem trocarem de legenda termina em 30 de setembro.
O deputado André Costa (RJ) inaugurou a debandada, ao deixar o PT na segunda-feira. O próximo a sair é João Alfredo (CE), que está no primeiro mandato de deputado federal. ''Por mim, já teria saído, mas tenho um compromisso com meus companheiros de aguardar a eleição para o Diretório Nacional, porque outros podem deixar o PT'', disse Alfredo. ''Não tenho ambiente no PT. Esta enrascada, em que o partido desmoraliza a ética e a moral, foi a gota d'água para minha decisão de sair.''
Ele afirmou que já tinha planos de sair: ''Não posso aceitar a política econômica ultraortodoxa adotada pelo governo, que destinou R$ 450 bilhões para o pagamento de juros desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu. Para a educação, no mesmo período, o governo destinou apenas R$ 45 bilhões, ou 10% do que foi para a dívida.''
Alfredo também lembrou que ''o PT do Ceará ficou muito ferido com a atitude da direção nacional, que apoiava Inácio Arruda, do PCdoB, e fez uma intervenção branca na legenda local para atrapalhar a eleição de Luizianne Lins para a prefeitura de Fortaleza. A manobra não deu certo e Luizianne venceu.''
Também pensam em deixar o PT, depois da eleição do Diretório Nacional, os deputados Chico Alencar (RJ), Ivan Valente (SP), Maria José Maninha (DF), Nazareno Fonteles (PI) e Walter Pinheiro (BA). Acham que, com a crise, as tendências independentes ou mais à esquerda têm condições de vencer o Campo Majoritário.
''O PT vive a maior crise de nossa história'', afirmou Chico Alencar. ''Dilapidaram nosso patrimônio ético e moral. Só uma radicalização da direção que for eleita no dia 18 pode mudar os rumos do partido.'' Na avaliação dele, o PT conquistou a sociedade quando se identificou com lutas como as das mulheres, dos negros, dos índios, dos homossexuais, dos pobres e pela preservação do meio ambiente. ''Foi uma revolução nos costumes políticos. Nós fugimos da ortodoxia leninista, do autoritarismo da revolução chinesa, mas veio aí uma turma e pôs tudo a perder.''
Para o deputado Ivan Valente, o PT foi a maior experiência da classe trabalhadora no século 20, o que levou o partido a estabelecer uma marca no mundo. ''Mas, irresponsavelmente, a direção partidária cometeu graves deslizes e comprometeu todo o projeto'', disse. ''Isso ocorreu porque a direção foi autoritária e apoiou uma política econômica equivocada que desperdiçou a energia obtida com a eleição do presidente Lula. Por isso mesmo, a direção que deixou o PT recentemente vai pagar caro diante da história por sua irresponsabilidade.''
Para o deputado paulista, os descontentes deveriam formar uma entidade, que poderia se denominar Movimento pelo Socialismo. Numa eventual vitória do Campo Majoritário para a direção petista, procuraria abrigo provisório em alguma legenda, para cumprir o prazo obrigatório de mudar de partido até o dia 30 - para os que desejam concorrer a cargo eletivo no ano que vem. Esse partido, segundo Valente, poderia ser o PSOL, o PSB ou o PDT: ''Cumpriríamos as normas eleitorais e teríamos tempo para decidir se ficamos nesse ou naquele partido.''
A movimentação dos petistas é observada à distância pelo secretário-geral da legenda, Ricardo Berzoini (SP), candidato do Campo Majoritário à presidência do PT. ''Tenho dito para todo mundo que ninguém vai encontrar um partido mais democrático e uma marca melhor do que o PT'', afirmou. ''Acho estranha essa tática de largar o partido se houver a vitória do Campo Majoritário. Isso não é debate político, é uma posição equivocada.''
Berzoini disse que nem mesmo a saída de André Costa pode ser dada como certa. ''Temos companheiros encarregados de conversar com ele. Faremos todo esforço para que recue e permaneça no partido.''


