Arquivo FolhaLula: ‘‘Não temos de ter medo’’ de criticar a política econômicaO PT começa a discutir hoje a possibilidade de deixar para o ano que vem o lançamento de seu candidato à presidência e a composição final de uma aliança de partidos de esquerda. Essas decisões estão marcadas para o encontro extraordinário da legenda, nos dias 13 e 14 de dezembro. No entanto, desde a semana passada, integrantes da cúpula petista vêm conversando sobre a proposta do deputado João Paulo Cunha (PT-SP) de adiar esse encontro para março de 1998.
Para ser aprovada, a idéia tem de ser consenso na direção nacional e, se passar, deverá empurrar o PT para um novo desafio: adotar um tom mais contundente contra o governo de Fernando Henrique Cardoso, evitando cair na retórica das críticas sem solução. ‘‘O partido precisa aproveitar o momento para dar a volta por cima, apresentar propostas e não ficar apenas criticando, dizendo não’’, alertou o deputado federal José Genoíno (SP), integrante da executiva nacional da legenda.
Além disso, a sugestão de jogar a escolha do candidato para março desagradou o principal aliado do PT no momento, o PDT, e também pode acirrar as divergências internas. ‘‘A idéia é boa, desde de que esteja firmada em um amplo acordo, sem alimentar a disputa interna’’, comentou Genoíno.
Logo após a crise nas bolsas, há duas semanas, os petistas mostraram-se cautelosos, mas acabaram cedendo ao discurso mais forte. Na quinta-feira, em ato realizado em São Bernardo do Campo, o principal líder do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, sintetizou o que passa nas cabeças petistas. ‘‘Não temos de ter medo de falar que essa política econômica de Fernando Henrique não presta para esse País, para os trabalhadores, porque falta uma política industrial, comercial, de educação e outras coisas’’, discursou.
O receio de que o presidente possa reverter a situação a seu favor, porém, existe e seria mais um motivo para adiar a definição do candidato. Dessa forma, estaria garantida a posição de confronto sem que o nome indicado ficasse exposto aos contra-ataques do adversário e ao impacto de um equívoco semelhante ao de 1994, quando os petistas insistiram em afirmar que o Plano Real só tinha fôlego eleitoral.
Para o deputado João Paulo, Fernando Henrique está, pela primeira vez desde que assumiu, na ‘‘defensiva’’ e, com o governo de guarda baixada, este seria o melhor momento para fazer confronto político, ‘‘atuando na conjuntura’’. Ele entende que é preciso denunciar a responsabilidade e a forma como o governo age na crise, mas apresentar um conjunto de propostas que se encaixem nos fatos presentes do País.
‘‘Precisamos insistir, por exemplo, no fim da TR, na redefinição dos financiamentos do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e no alongamento da dívida de pequenos empresários e produtores rurais’’, diz, acrescentando que essas questões não podem ser confundidas com o programa econômico das oposições. ‘‘O projeto mesmo será apresentado mais para frente.’’
Na defesa de sua proposta, João Paulo também argumentou que o mês de dezembro não é o melhor período para lançar uma candidatura. ‘‘É um problema de comunicação; um nome lançado agora se perderia numa época de festas e férias, tendo poucas chances de subir nas pesquisas de opinião’’, explicou. O deputado apresenta a proposta hoje a vários integrantes da executiva do partido. João Paulo quer convencê-los a antecipar a reunião desta seção da legenda, agendada para o dia 27, colocando a idéia na pauta do PT. Dentro do campo majoritário petista, a proposta é vista com muita simpatia.

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