Arquivo FolhaJosé Genoino: democracia e cidadania são inegociáveisO PT e seus aliados já têm candidato à Presidência da República, mas a luta interna das facções do partido está retardando a escolha do mote principal da campanha. A ala moderada quer de Luiz Inácio Lula da Silva a defesa de uma política para o terceiro milênio - democracia, saúde e educação, proteção ao meio ambiente e aos valores culturais. O contrário, dizem eles, é a volta ao século 19. Os radicais querem de Lula a defesa do socialismo, a denúncia do governo de Fernando Henrique Cardoso como o mais ‘‘entreguista’’ de todos e uma mobilização dez vezes superior às que são feitas no campo pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).
Para o deputado José Genoíno (PT-SP), representante dos moderados, dois valores são inegociáveis: a democracia e a cidadania. Segundo ele, ninguém aguenta mais ouvir falar em queda de bolsa, globalização e privatização. Em uma coisa todos concordam: se o PT não conseguir transferir confiança aos eleitores, qualquer argumento será inútil.
Valter Pomar, da executiva do partido e integrante da ala xiita ‘‘Articulação de esquerda’’, pensa diferente. Segundo ele, a campanha eleitoral deve ser a síntese da mobilização contra a política econômica do governo. A mobilização ‘‘dez vezes superior ao MST’’ seria conseguida, segundo Pomar, por demandas individuais, como a busca de vagas nas escolas, saúde, justiça, juros mais baixos e reforma agrária.
O governador petista de Brasília, Cristovam Buarque, também da ala moderada, prega o que, para os radicais, é uma heresia. ‘‘Temos de dar um choque de socialismo no capitalismo’’. Ele diz que o Brasil é um país capitalista e que isto não vai mudar só porque alguns querem vê-lo socializado. ‘‘Vamos aproveitar o que já existe e fazer programas do socialismo, como manter toda criança na escola até o segundo grau e não só no primeiro; criar programas de saúde e de geração de empregos’’. As propostas de Lula, segundo ele, devem ser todas neste sentido, ‘‘sem blá-blá-blᒒ.
O deputado Luiz Gushiken (PT-SP) será o coordenador da campanha de Lula. Ele diz que uma coordenação nacional ainda vai definir os pontos da campanha. Pessoalmente, acha que Lula deverá encontrar as respostas para as atuais incertezas dos cidadãos. ‘‘É preciso passar para a sociedade a impressão de que somente a esquerda está capacitada para assumir certas políticas, como evitar que o País continue sendo invadido pelas bugigangas que nada significam’’.
A esquerda, afirma Gushiken, tem condição de proteger os empresários nacionais, oferecendo-lhes maiores perspectivas de ousadia e de competitividade. ‘‘Não devemos fechar o País para o mundo, porque não concordo com este tipo de nacionalismo, mas temos de respeitar o produto feito aqui’’. Gushiken afirma ainda que só a esquerda é capaz de mostrar ao pequeno proprietário que o Estado deve lhe dar guarida. ‘‘Algumas agroindústrias só podem funcionar com a ajuda do Estado’’, afirma.
O presidente nacional do PT, José Dirceu, acredita que Lula deve dizer que o País nunca esteve em uma fase tão instável: ‘‘Se há desemprego, há instabilidade’’. Embora integre uma das facções mais moderadas do partido, Dirceu acha que Lula deve bater muito em Fernando Henrique: ‘‘Temos de mostrar o que o presidente não fez, embora tenha falado muito’’. Na lista estão as frustradas reformas política e do Judiciário. ‘‘A convivência do presidente com os deputados e senadores para a aprovação de matérias de seu interesse está degradando os costumes políticos, trazendo à luz a compra e a venda de votos’’, argumenta.
O deputado José Machado (PT-SP), líder petista em 97, quer que a campanha de Lula não tenha resquícios fundamentalistas e seja, em resumo, a defesa da democracia. ‘‘Vislumbro uma campanha bastante arejada, com idéias novas’’. Segundo ele, o PT deve reavaliar o Brasil. ‘‘Não podemos agir como se a realidade não tivesse mudado; é preciso compreender os novos tempos, o que não significa aceitar a realidade como ela 钒.
Machado quer ver o PT distribuindo utopias. ‘‘Não podemos perder de vista a defesa da justiça social, a ética na política’’, afirma o deputado. ‘‘Ao mesmo tempo, não podemos ter a ilusão de que vamos reverter este quadro que está aí, porque não temos condição de passar a borracha sobre tudo e, além do mais, o custo seria insuportável para o País’’.
Para o deputado José Machado, as pessoas até aceitam romper com o governo Fernando Henrique, mas têm, antes, que acreditar na possibilidade de a esquerda ser capaz de assumir o governo. ‘‘Não adianta só dizer palavras de ordem e atacar o neoliberalismo. O povo está preocupado é com o desemprego, com as pequenas e médias empresas’’.(AE)

mockup