Brasília - Em evento que reuniu ontem cerca de mil sindicalistas no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que o PT não pode ter ''medo'' das investigações e que deve dar um ''bom exemplo'' diante das atuais denúncias contra ele. Ao iniciar sua fala, interrompida seguidas vezes por aplausos, Lula agradeceu a ''solidariedade'' dos sindicalistas diante do momento rotulado por ele mesmo de ''ruim'' do ponto de vista político mas ''importante'' para a democracia do país. Segundo ele, todos estão sujeitos a ''desvios'', ''erros'', ''desacertos''.
Oficialmente, o encontro de ontem tinha como objetivo a entrega ao presidente de uma carta de sugestões sindicais à Presidência. Na prática, porém, o evento, que superlotou o salão nobre do Planalto, se transformou num ato de apoio explícito a Lula diante da pior crise política de sua gestão, iniciada em janeiro de 2003.
A ''Carta aos Trabalhadores e à Sociedade Brasileira'' acusa grupos ''inconformados'' da sociedade de tentar derrubar o governo Lula, por meio de um ''espetáculo de denuncismo''.
O encontro com os sindicalistas durou uma hora. Os primeiros 40 minutos foram reservados a gritos de apoio a Lula e de seguidos discursos de sindicalistas ligados à CUT (Central Única dos Trabalhadores) e à CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores). A Força Sindical, adversária da CUT, temendo um teor panfletário do evento, não enviou representantes.
Depois de ouvir os sindicalistas, que atacaram a imprensa, defenderam o governo e pediram mudanças na política econômica, Lula abriu sua fala, de 20 minutos, agradecendo a ''solidariedade'' dos presentes. ''E eu não poderia deixar de agradecer esse gesto de solidariedade. Aliás, solidariedade é sempre muito bom. Todos nós deveríamos aprender a fazer mais gestos de solidariedade a favor de muita gente que todo santo dia está precisando que façamos gestos de solidariedade.''
O presidente, a seguir, falou do momento ''ruim'' que atravessa sua gestão, diante de denúncias de corrupção contra diferentes esferas. Lula disse que todos estão sujeitos a ''erros'' e ''desacertos''. ''Entretanto, no meio do caminho, sempre alguém pode cometer desvios, alguém pode cometer erros, alguém pode cometer desacertos. E isso acontece na nossa própria família, acontece na vila em que a gente mora, na rua em que a gente mora, na cidade.''
Já no meio de sua fala, Lula citou nominalmente seu partido, o PT, acusado de pagar mesadas a deputados da base aliada em troca de apoio no Congresso. Por causa das denúncias, a cúpula do partido deixou seus cargos nos últimos dias, incluindo José Genoino, que se afastou da presidência da sigla no último sábado.
''Todo mundo aqui tem acompanhado denúncias contra o PT, denúncias contra outras pessoas deste país, e eu tenho dito o seguinte: cabe ao PT, agora, dar o exemplo de que o bom exemplo vem de dentro de casa. Se alguém cometeu um erro dentro do partido, tem que pagar, e o partido, no tempo em que entender que deva fazer, começar a fazer.''
O recado ao PT também vale ao governo, segundo Lula. ''E cabe ao nosso governo não ter medo de investigar, não ter medo de permitir que haja todo e qualquer tipo de investigação porque, se alguém cometeu um erro, um delito, tem que ser punido.''

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