Brasília - Os filiados do PT vão hoje às urnas para eleger de forma direta a nova direção do partido. Concorrem sete chapas com candidatos à cadeira de presidente - a mesma que já pertenceu a Luiz Inácio Lula da Silva, José Dirceu e José Genoino. Nos debates que antecederam o pleito de hoje falou-se aqui e ali da questão ética e das crises ideológicas e políticas que sacodem o partido desde o vendaval do mensalão, em 2005.
Mas esse não foi o centro real da discussão. Ela girou sobretudo em torno das articulações para as próximas eleições e do controle da máquina partidária. Os dirigentes eleitos neste domingo só deixarão o comando partidário em 2009. Isso significa que terão poder para influir nas eleições municipais de 2008 e também nas negociações para a sucessão do presidente Lula, em 2010.
Não se trata de um poder desprezível. Mesmo fragmentado em tendências e às voltas com crises internas, o PT dispõe hoje da mais bem articulada máquina eleitoral do País, com milhares de pessoas em cargos estratégicos - que podem servir ao partido e ao grupo hegemônico em seu interior. Elas estão instaladas na Presidência da República e nos 15 ministérios e secretarias especiais controladas pelo partido, além de cargos em estatais, autarquias e assessorias.
O poder de fogo da sigla ainda conta com 83 deputados federais, 12 senadores, 5 governos estaduais, 126 cadeiras em Assembléias Legislativas, 3.684 postos de vereador e 382 prefeitos. O número oficial de filiados, que cresceu aos saltos desde a vitória de Lula em 2002, já se aproxima da casa do 1,2 milhão. Desse montante, 917 mil estão aptos a participar da eleição de hoje, mas a maioria não comparece às urnas.
O controle imediato dessa máquina tende a centralizar cada vez mais as atenções e as disputas internas. ''No passado, os debates eleitorais do PT giravam em torno de programas e dos rumos ideológicos. Na eleição de 2005, eles foram dominados pela questão ética. Mas agora o que mais pesa é a preocupação com o controle da máquina partidária'', observa o cientista político Marco Antonio Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
No grupo dos três principais postulantes à presidência do partido, dois são pré-candidatos à Prefeitura de São Paulo: os deputados federais José Eduardo Martins Cardozo e Jilmar Tatto. Além de seus projetos pessoais, cada um deles representa grupos com interesses bem mais elevados.
O que predomina no debate é a sucessão de Lula. O Palácio do Planalto torce claramente por Ricardo Berzoini, atual presidente e candidato com as melhores chances de vitória entre os sete candidatos.
A vitória de Berzoini manteria e legitimaria uma vez mais a hegemonia do antigo Campo Majoritário, do qual Lula faz parte, e daria novo fôlego à atual política de alinhamento, muitas vezes automático, do partido com o governo. Em termos mais práticos, no caso do presidente da República optar pelo apoio a um candidato não petista à sua sucessão, em 2010, Berzoini certamente causaria menos problemas que os outros pretendentes ao cargo.
A vitória de Martins Cardozo criaria pequenos tremores, com a redução do poder do antigo Campo Majoritário e o rearranjo de forças petistas. A candidatura dele é atribuída sobretudo a articulações do ministro Tarso Genro, da Justiça, que logo após o mensalão propôs, sem sucesso, a refundação do PT, com mudanças em métodos de direção e linhas políticas.
As outras quatro candidaturas alinham-se à esquerda do partido e têm poucas chances de vitória.
Se depender de levantamentos realizados pelas correntes petistas nas últimas semanas, deve prevalecer mesmo a vontade de Lula na eleição de hoje. Berzoini, segundo estimativas de seus aliados, tem condições de obter cerca de 150 mil votos, em um cenário otimista.
Se o quórum nas urnas se aproximar dos 300 mil militantes esperados, isso equivaleria a 50% dos votos e abriria uma chance, mesmo que restrita, de vitória no primeiro turno. Por esse cenário, Tatto e Martins Cardozo teriam chances de levar a disputa ao segundo turno, já que conseguiriam 38 mil e 36 mil votos.
A possibilidade de vitória de Berzoini no primeiro turno foi apontada até mesmo nas pesquisas internas realizadas por aliados de Tatto. A expectativa é de que o atual presidente do PT obtenha algo em torno de 45% a 50% dos votos.
Seja qual for o presidente escolhido, ele dificilmente contará com a maioria absoluta no Diretório Nacional do PT que tanto facilitou as gestões de José Dirceu e Genoino. Mesmo dentro da chapa de Berzoini, o que se espera é que a participação alcance a faixa de 45% dos 81 assentos, um leve aumento em relação aos atuais 42%.

mockup