PT comanda troca-troca recorde
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sábado, 27 de setembro de 2003
Christiane Samarco,Eugênia Lopese Sérgio Gobetti<br>Agência Estado 
Brasília Não é só no comando da economia que o PT está surpreendendo adversários e aliados com um toque conservador. Também no Congresso, onde os petistas entoavam e praticavam havia 20 anos o discurso da fidelidade partidária, o Palácio do Planalto causa surpresas ao estimular parlamentares a um troca-troca recorde de partido. De 1.º de janeiro até o fim da tarde de sexta-feira, 113 dos 513 deputados eleitos em 2002 mudaram de partido, superando, assim, a maior dança de cadeiras dos últimos 15 anos.
O recorde anterior, quebrado agora pelo governo petista com a cooptação que engordou sua base de apoio na Câmara, havia ocorrido em 1993, quando 104 deputados mudaram de legenda. Mas o número de 2003 ainda não está consolidado. A cinco dias do prazo final de filiação partidária para os candidatos às eleições municipais do ano que vem, os governistas prevêem um aumento considerável na lista do troca-troca.
''Pensei que essa prática seria abandonada'', lamenta o deputado José Ivo Sartori (RS), há 27 anos no PMDB. Integrante da comissão especial da reforma política, ele não acredita que o tema venha a ser prioridade.
Estratégia avaliação é de que o Congresso ficará esvaziado esta semana, quando estarão todos ocupados com suas estruturas nos Estados. A ordem é filiar o maior número de candidatos na disputa municipal, pois os futuros prefeitos serão a base política dos senadores e principais cabos eleitorais dos deputados na reeleição.
Com uma base frágil e pulverizada, o Planalto optou no primeiro momento pela estratégia de inchar os pequenos partidos da coalizão. Como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não estava convencido da necessidade de trazer o PMDB por inteiro, a alternativa foi atrair adversários para siglas menores.
Embora seja o principal catalisador do troca-troca, o PT permanece invicto. Elegeu 91 deputados e hoje têm 93 - dois titulares assumiram cargos nos Estados e abriram duas vagas para suplentes do PT. Petistas concordam que, para preservar a coesão interna, maior trunfo e característica da legenda, o melhor caminho é manter intacto o partido do presidente Lula.
O principal articulador político do governo, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, comandou nos bastidores a dança das cadeiras. E quem mais comemorou foi o líder do PTB na Câmara, Roberto Jéfferson (RJ). Seu partido elegeu 26 deputados e tem hoje 55. ''O Zé Dirceu nos prestigiou'', conta.
Também o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes (PPS), atuou para engordar o partido de Jéfferson. Ciro entrou em cena diante do veto do presidente do PPS, deputado Roberto Freire (PE), a alguns de seus amigos.
Mas o trabalhismo não foi o único a se beneficiar da parceria com o Planalto. O PL do vice-presidente José Alencar (MG) saltou de 26 para 41 deputados. E o PMDB já contabiliza as vantagens da aliança. Enquanto o PSDB e o PFL encolheram - a debandada atingiu nada menos que 19 pefelistas e 18 tucanos -, o PMDB exibe a conta confortável de 77 deputados, embora tenha eleito 75. ''Se não fizéssemos parte da base, o PMDB teria sido vítima de uma terrível ação predatória na Câmara'', diz o líder do partido no Senado, Renan Calheiros (AL).
Senado No Senado, onde o PMDB é majoritário com 20 dos 81 senadores, a cooptação avulsa fica bem mais difícil. Até agora, houve quatro trocas: Gerson Camata saiu do PMDB, o senador Papaléo Paes (AP) trocou o PTB pelo PMDB, Juvêncio da Fonseca (MS) foi do PMDB para o PDT e Álvaro Dias (PR) voltou ao PSDB.
O destino da senadora petista Heloísa Helena (AL) ainda é incerto. Sob a ameaça de expulsão do PT, ela não decidiu se deixa o partido esta semana e aceita um dos convites para se filiar a outra legenda ou se continua no PT e corre o risco de não poder disputar a prefeitura de Maceió, em 2004.
''É uma escolha muito difícil, que mexe com a alma e com o coração'', resume a senadora, ao lembrar que passou por maus momentos para construir o PT em Alagoas. ''Mas quero ser prefeita.'' Seu futuro no PT será decidido em 25 de outubro. Se expulsa, não poderá disputar as eleições municipais.


