Montanhas de dívidas vencidas e o desafio de resgatar a credibilidade da prefeitura, cuja imagem ficou desgastada depois de uma onda de corrupção. Esta é a herança que os prefeitos petistas eleitos nos três maiores municípios do interior do Paraná (Londrina, Maringá e Ponta Grossa) vão ganhar a partir de hoje. Juntos, os municípios têm dívidas de praticamente R$ 800 milhões e as três prefeituras enfrentaram denúncias de desvios de recursos públicos.
Desde que foi eleito, no final de outubro, o prefeito de Londrina, Nedson Micheleti, tem ouvido basicamente duas cobranças da população: que faça uma administração honesta e consiga o equilíbrio de caixa. E não é para menos: ele irá assumir hoje um município que, nos últimos anos, foi marcado por denúncias de corrupção (os desvios dos cofres públicos podem chegar a R$ 200 milhões) e dívidas no valor de R$ 530 milhões. ‘‘A situação está mais grave do que a gente consegue imaginar’’, confessa Nedson. ‘‘Será um ano muito difícil. Para Londrina será uma travessia no deserto’’, diz, usando uma simbologia bíblica.
Não bastasse a dor de cabeça para negociar as dívidas já vencidas, de imediato, Nedson terá de conseguir recursos para pagar parte do 13º e os salários de dezembro e janeiro – R$ 28 milhões. A folha de pagamento, aliás, deve merecer atenção especial do petista. Os salários dos cerca de 7.200 servidores consomem R$ 12,5 milhões, enquanto receita mensal é de R$ 14 milhões. ‘‘Para nos adequarmos à Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), que prevê que a folha não pode ultrapassar 54% da receita, tem muito chão.’’
Uma das primeiras medidas, adianta o petista, será reduzir o número de cargos comissionados dos atuais 132 para 60. ‘‘Vamos rever os casos irregulares na frente de trabalho (que hoje soma 2.170 pessoas) e os contratos terceirizados’’, promete. Ao mesmo tempo, afirma, será adotada uma política de cobrança e fiscalização para aumentar a receita do município.
Além da crise financeira e de uma prefeitura com uma estrutura sucateada, Nedson diz estar consciente que terá de encarar uma grande dívida social acumulada. ‘‘São creches que estão sem receber, entidades assistenciais com repasses atrasados, pessoas na periferia com dificuldades, a zona rural com estradas sem manutenção’’, exemplifica. ‘‘Essa dívida, que não é monetária, mas com as pessoas, também é altíssima.’’
Por causa dos problemas, Nedson adianta que em 2001 os investimentos estão descartados. ‘‘O primeiro ano de governo é para equilíbrio da máquina pública, adequação à LRF. Vamos fazer economia total’’, ressaltou, dizendo que espera a compreensão da população.
Segundo o prefeito eleito, apenas as questões básicas serão mantidas: saúde, educação, atendimento à criança e manutenção da cidade. Apesar da crise, ele garante que, das propostas de campanha, três devem ser implantadas ‘‘imediatamente’’: Saúde da Família, Bolsa-Escola e a Rede da Cidadania.
Para cumprir a promessa de uma administração transparente, Nedson informa que em fevereiro já estará passando para a população o primeiro relatório sobre a situação do município. ‘‘Quero fazer plenárias em todas as regiões para informar sobre a situação, explicar as medidas que estou tomando e ouvir sugestões’’, disse.
Nedson defende também a fiscalização da comunidade sobre os atos da administração, através do Movimento pela Moralização na Administração Pública e da implantação da ouvidoria – uma de suas propostas de governo. Ele pretende encaminhar o projeto de lei criando a ouvidoria para a Câmara de Vereadores, assim que os trabalhos no Legislativo tiverem início.
Segundo Nedson, o ouvidor será uma pessoa indicada pela comunidade e não terá qualquer ligação com o prefeito. ‘‘O vínculo dele deve ser com a sociedade. Ele terá de fiscalizar desde o prefeito até o office-boy.’’
Sobre o orçamento participativo (discutir com a comunidade quais benfeitorias e obras devem ser incluídas no orçamento), uma marca da administração petista, o prefeito eleito garantiu que esta prática será implantada em 2002. ‘‘O orçamento de 2001 já foi feito pelo atual governo e votado pela atual Câmara. Quer dizer: não tenho nenhuma governabilidade sobre ele.’’
Na opinião de Nedson, não haverá grandes problemas de relacionamento com o governador Jaime Lerner (PFL), apesar de ser oposição. No mês passado, ele foi a Curitiba para ‘‘quebrar o gelo’’ e ter uma relação aberta e institucional com Lerner. O prefeito de Ponta Grossa, Péricles de Holleben Mello, que também já manteve encontro com Lerner, promete que a relação com o Estado será de respeito e cooperação. Já o prefeito de Maringá, José Cláudio Pereira Neto, disse que não tem nenhuma preocupação em governar sendo oposição.
Sobre o secretariado (reduzido de 27 para 21 pastas), Nedson afirma que a principal cobrança será para fazer um trabalho participativo. ‘‘Não quero que um secretário faça de sua pasta uma ‘prefeiturinha’ à parte, mas que trabalhe de forma integrada’’, alertou. O primeiro escalão da prefeitura é formado por filiados do PT, do PPS, do PHS, do PMDB e até um do PFL, além de outros seis ‘‘sem partido’’.
A posse de Nedson, do vice-prefeito Luiz Carlos Bracarense (PPS) e dos vereadores será hoje, às 18 horas, na Câmara de Vereadores. Depois, às 20 horas, o prefeito Jorge Scaff (PSB) transmite o cargo a Nedson, no saguão de entrada da prefeitura.

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