PT ''a caminho do autoritarismo''
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sábado, 14 de junho de 2003
Silvio Bressane Conrado Corsalette<br> Agência Estado 
São Paulo - Fundador do PT, o sociólogo e cientista político Francisco de Oliveira acredita que o governo Luiz Inácio Lula da Silva está caminhando para ''um autoritarismo disfarçado de democracia''. Isso porque, segundo Oliveira, não está conseguindo lidar com opiniões contraditórias em sua base histórica. ''Está faltando tolerância e cultura democrática'', acredita o sociólogo.
O governo Lula demonstra que quem não está com ele é adversário. O senhor se considera opositor?
Oliveira - Não. Se o governo me considerar assim é um problema dele. Sou militante do PT e tenho como obrigação fazer críticas ao governo que o meu partido forma como coluna principal.
Como o senhor vê essa radicalização do governo contra críticas que recebe?
É uma coisa maniqueísta, autoritária e anacrônica numa sociedade cuja complexidade elegeu Lula. Ele deveria estar atento para isso. É coisa de George Bush.
Mas não foi a unidade de ação que fortaleceu o PT como partido?
Não acredito. O PT votava unido contra porque achava que as causas exigiam essa postura. Mas o PT errou quando expulsou os três deputados que votaram no colégio eleitoral (José Eudes, Bete Mendes e Airton Soares) e nunca reconheceu esse erro. Voltou a errar ao não subscrever a Constituinte e ao não apoiar Luiza Erundina quando ela integrou o ministério de Itamar Franco. Já erramos muitas vezes e podemos continuar a errar. O PT deveria arejar.
Lula está em débito com os intelectuais do PT?
Oliveira - Não. Até agora demos opiniões discordantes e não me sinto atingido por nada. A não ser que se comece uma perseguição maniqueísta para enquadrar e até expulsar. Infelizmente, estou vendo as reações como uma perigosa tendência de caça às bruxas. Está faltando tolerância e cultura democrática ao governo.
O presidente do PT, José Genoino, cobra dos intelectuais uma proposta.
Oliveira - É a velha história que o Fernando Henrique já cobrava. Alternativa não é proposta por intelectuais. É um movimento que se dá na sociedade. Intelectual indica caminhos, pistas, sugestões. E o PT nem considera isso, porque se ouvisse intelectuais o governo não faria o que está fazendo.
Não ficou claro na campanha que Lula seguiria um caminho mais conservador? Porque essas manifestações não foram feitas antes?
Oliveira - Elas foram feitas antes da eleição. O grupo do qual participei sempre fez críticas às alianças e à projeções de políticas que já apareciam. Acontece que estávamos numa campanha eleitoral, todo mundo entusiasmado, e é sempre essa história: varre a sujeira para baixo do tapete, enquanto a vitória cuida do resto.
Pode surgir um novo partido de esquerda?
Oliveira - Não prevejo nenhum novo partido a curto prazo. A luta vai ser interna e com custos muito altos, devido à postura autoritária da direção, de retaliar, expulsar, punir. Acho que vai ficar um vácuo perigoso, porque o PT perde força na sua própria coligação.
Quais seriam as consequências?
Oliveira - Se 20 deputados são anulados, diminui a força do PT no Congresso. Aí o governo fica refém das negociações no varejo, da trocas de favores, nomeações. E a forma com que o partido conduz isso é desastrosa. É uma política autofágica, de fragmentação. O que vai se conseguir é a ingovernabilidade, um governo fraturado. Essa coisa de que se formou uma enorme maioria é uma ilusão perigosa. Maiorias amplas, feitas na base do favor e da troca, não asseguram nada de bom.
Como explicar a alta popularidade de Lula?
Oliveira - No Brasil raramente um presidente cai muito de popularidade. Mesmo o Fernando Henrique, com todo o desgaste, saiu com 45% de popularidade. Isso é uma bobagem e não deveria comover políticos experimentados. A aprovação ao governo pode começar a baixar, enquanto a popularidade do presidente pode continuar alta. Isso é típico na cultura política brasileira. Quem se enganar com isso, não aprendeu nada de política.
O governo Lula não tem nada de positivo?
Oliveira - Do ponto de vista do que se esperava, não tem nada positivo. Nas margens, pelo menos tem sido um governo que topa o diálogo. Mas se continuam dando os sinais que estão dando, o governo caminhará para uma forma autoritária disfarçada de democracia.


