São Paulo - Noite de quarta-feira, dia 12. Bairro da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo. No balcão do Bar do Gê, Rei da Calabresa, o grupo de amigos, ainda atordoado pelo noticiário sobre a absolvição de Renan Calheiros no Senado, na primeira acusação de quebra de decoro parlamentar, decidiu fazer alguma coisa para extravasar o engasgo, a indignação. Mas o quê?
A conversa seguiu, arrebatada, entre goles de cerveja e rodelas de linguiça picante, até que Mário Tadeu, o Chacrinha, contabilista, pegou caneta e guardanapo de papel. Anotou algumas frases e exibiu para o grupo.
Na tarde do dia seguinte, as frases apareceram numa faixa, exposta na porta do bar, na esquina das ruas Cruzeiro e Baronesa de Porto Carreiro: ''Renan... Você não tem vergonha de ser brasileiro? CPMF e Renan - vergonha. Se você está contra, buzine''. A maioria dos motoristas que liam a faixa buzinavam contra a absolvição. ''Um buzinaço'', comemorou José Furaco, dono de uma oficina mecânica e amigo de Chacrinha. A faixa foi retirada à noite, a pedido dos vizinhos, incomodados com tanta buzina, mas voltou na sexta-feira.
Em São Paulo, a notícia da absolvição provocou por toda parte manifestações de indignação, raiva, sarcasmo e também decepção. Lucas D'Agostini, estudante do terceiro ano do ensino médio, contou que em sua classe o que mais se ouviu foram críticas aos políticos. ''Eu, que achava que eles já tinham chegado ao fundo do poço, vi que podem se superar e ir mais fundo'', disse.
O locutor de uma emissora de rádio, diante dos protestos dos ouvintes, disse que uma nuvem de baixo astral tinha descido sobre a cidade. No site de relacionamento Orkut, a comunidade Fora Renan agregou 1493 participantes.
Nas conversas a sensação era de uma cicatriz recém-tatuada na história política. ''Foi um absurdo!'', disse o professor Jair Assumpção, antes que o repórter terminasse de pedir sua opinião sobre o episódio. ''Percebo uma decepção muito grande entre as pessoas que conheço. Meu medo é que elas percam a capacidade de se indignar - o que seria uma pena.''
Ao lado do professor, seu amigo, o ator Álvaro Gomes, contou que tentou acessar já na quarta-feira o site do Senado para manifestar sua raiva: ''Não consegui porque o site ficou fora do ar. Quando voltou, enviei vários e-mails. Para a Ideli Salvatti, do PT, escrevi: ''Lastimável''. Para o Pedro Simon, do PMDB: ''Mude de partido''.
O nome do senador petista Aloizio Mercadante, que se absteve na votação, foi quase sempre lembrado. ''No e-mail para ele, disse que foi a segunda maior decepção política da minha vida'', contou Gomes. ''A primeira? O José Dirceu.''
A estudante de Publicidade Carla Rodrigues não fez rodeio: ''Votei no Mercadante e acho que fiz bobagem''. Ao lado dela, a amiga Samia Nogueira, estudante de Direito, apontou o voto secreto como o causador da ''palhaçada'', conforme sua expressão: ''O voto secreto só deveria ser usado em casos excepcionais.''
Boa parte das pessoas ouvidas associou a absolvição a alguma outra cicatriz política recente. O engenheiro Maykow Lenzi lembrou o caso dos deputados que, condenados pelo Conselho de Ética, no episódio do mensalão, foram absolvidos em plenário.
O motoboy Moacir Dias, que em 1992 foi à rua pedir o impeachment de Fernando Collor, lembrou da raiva que sentiu ao vê-lo retornar à política como senador por Alagoas. Na Padaria Santa Marta, na Avenida Heitor Penteado, o balconista conhecido como China fez, sem perceber, uma condenação do corporativismo: ''Lembrei do caso do promotor que matou um rapaz e ficou livre e recebendo salário. Essa gente, como o Renan e o promotor, fica rindo da nossa cara''.

mockup