Curitiba – Sem representantes do governo federal e mediante protestos de grupos feministas contrários ao presidente interino Michel Temer (PMDB), a Casa da Mulher Brasileira (CMB) de Curitiba entrou em funcionamento ontem. Embora gerida pelo município, a unidade, localizada no bairro Cabral, faz parte de um dos programas que desde 2013 é bandeira de Dilma Rousseff (PT), o "Mulher Viver Sem Violência". É a terceira a ser inaugurada no País, de 27 previstas pela União, e custou R$ 14 milhões.
O espaço reúne, em 3,4 mil metros quadrados, uma série de serviços públicos, incluindo um núcleo do Juizado de Violência Doméstica e Familiar do Tribunal de Justiça (TJ), o Ministério Público (MP), a Delegacia da Mulher e a Defensoria Pública. Há ainda locais destinados a acolhimento, triagem, apoio psicossocial, brinquedoteca para crianças e alojamento de passagem com dez leitos. Como nem Temer nem o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, estiveram na solenidade, não houve sequer descerramento de placa. Em nota, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres informa que "Temer, Moraes e a secretária Especial de Políticas para as Mulheres, Fátima Pelaes, vão inaugurar o local em 28 de junho".
Ontem, discursaram a secretária municipal da Mulher, Roseli Isidoro, e o prefeito da cidade, Gustavo Fruet (PDT), a coordenadora estadual de Políticas para as Mulheres, Terezinha Beraldo, o procurador de Justiça Olympio de Sá Sotto Maior Neto, o presidente do TJ, Paulo Roberto Vasconcelos, um padre e um pastor. As falas dos cinco homens e duas mulheres eram intercaladas por gritos como "Temer, machista, corrupto e golpista" e "Dilma, presente, coração valente".
"Nós temos clareza que o momento político é difícil. O País enfrenta dificuldades, entretanto, desde o princípio a presidenta Dilma deu uma ordem aos gestores, de que essa Casa e esse programa não teriam cor partidária. Portanto, a nossa ação, o nosso empenho e o esforço da prefeitura, através da secretaria e de todos os parceiros do serviço, é para que essas mulheres sejam atendidas com dignidade e com o respeito que merecem", disse Roseli. Ela contou que o aporte do governo federal já foi feito e que a questão política não deve interferir no cronograma de desembolso.
"Se tem uma coisa que eu nunca visualizei é a bandeira, a posição política. Nessa luta a gente caminha juntas e quero aqui reconhecer que estamos caminhando com as mulheres de esquerda, de direita, de centro, as profissionais do sexo, as trabalhadoras rurais, as lésbicas e as sindicalistas. E nós caminhamos porque o nosso objetivo é único, a nossa luta é única", discursou Terezinha.
De acordo com Janaína Meazza, membro da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), a CMB servirá como "escape" para mulheres que sofrem não apenas violência física, como também outros tipos de agressão, e que muitas vezes dependem financeiramente de seus agressores. Por outro lado, ela criticou a falta de voz do público-alvo. A feminista negra Telma Mello e a coordenadora da União Brasileira de Mulheres (UBM) Celia Regina Piontkievicz têm opinião semelhante. "Nós não inauguramos essa Casa. Só homens brancos falaram. Mas vamos tomar o que é nosso. Nós, mulheres, legítimas donas desse espaço, ainda vamos inaugurá-lo", afirmou Telma. "Esperamos que as autoridades consigam fazer funcionar esse projeto tal qual ele foi projetado. Nós, enquanto movimento feminista, vamos ter trabalho, porque esse ‘desgoverno’ está retirando todos os direitos das mulheres. Mas, se as coisas não funcionarem, a gente vai fazer pressão", acrescentou Célia.

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