Propostas independem do ajuste fiscal
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de outubro de 1998
Marcelo de Moraes e Jair Rattner Agência Estado 
As propostas apresentadas pelo presidente Fernando Henrique Cardoso para garantir a proteção de países emergentes dentro do mercado financeiro são independentes do programa de ajuste fiscal que o Brasil deve adotar depois do dia 25. O presidente afirmou que as medidas serão feitas para garantir o corte de gastos e que as propostas de modificações no sistema financeiro não são um recurso para reduzir o formato do programa de ajuste. Ele lembrou que o discurso brasileiro foi semelhante a dos outros líderes de governo que participam da Cúpula do Porto.
Todos aqui falaram a mesma coisa, na mesma direção, com problemas muito diferentes dos do Brasil. Em primeiro lugar, o Brasil está numa situação peculiar. Tem muita reserva. O Fundo Monetário Internacional nunca se houve com um país com muita reserva. Países que vão ao Fundo não têm reservas. Quebraram. Não é o nosso caso. Por aí, você vê que é uma questão diferente, que não tem nada a ver diretamente, digamos, com as agruras nossas.
Fernando Henrique garantiu que o ajuste fiscal é uma responsabilidade do Brasil e será feito à parte qualquer proposta de mudança no sistema financeiro. Eu não quero dizer que não tenhamos também responsabilidade de não ter feito as reformas com mais energia. Não quero que traduzam as minhas palavras como se o Brasil, ao invés de tomar as medidas necessárias, estivesse propondo isso. Não, não. Eu acho que os países que estão em desenvolvimento têm de tomar as medidas de equilíbrio fiscal. O equilíbrio fiscal veio para ficar como uma coisa importante, afirmou.
O presidente disse, no entanto, que não pode haver obsessão com inflação em vez de crescimento nos países que não têm inflação e que estão com perigo de não crescer. É justamente a preocupação em criar mecanismos que aquecimento de economia que fez com que o presidente Fernando Henrique propusesse a criação do Fundo de Contigência (ver nesta página), com recursos oriundos da taxação do fluxo de capitais de curto prazo.
Fernando Henrique cita que os países mais industrializados poderiam entrar também nessa discussão. Acho que era o caso de esses países começarem a discutir um mecanismo mais estável para o Fundo Monetário dispondo os recursos necessários, em vez de passar o pires a cada situação de emergência.
Para ele, os bancos centrais poderiam fazer essa cobrança da taxa e que poderia ser feita principalmente num grupo específico de países. Poderia ser cobrada pelos bancos centrais, mas eu não tenho uma proposta. A idéia não é minha, é do Tobin, é antiga. Só que o Tobin olhava isso para os países pobres. Se é possível pensar uma taxa para os países pobres, por que não pensá-la para voltar à idéia keynesiana de um mecanismo global que permita resolver as questões de liquidez expressa?
O presidente acha que as propostas apresentadas não devem ser impostas. Para ele, o Brasil já passou pela pior fase da crise econômica e resistiu mais uma vez. Acho que o mundo está percebendo que nós já passamos da crise, do momento mais agudo da crise. E resistimos. Esta é a terceira vez que fazemos isso. Então, nós temos autoridade política e moral, até porque eu sempre disse isso. Mas de que adianta dizer há anos se a situação não amadurece? Estou dizendo que agora a situação amadureceu.


