Proposta do PT agrada industriais nacionalistas
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de agosto de 1998
Antonio Carlos Seidl Agência Folha 
Considerada uma declaração superficial de boas intenções pelas câmaras de comércio da Alemanha e dos Estados Unidos e pelo PNBE, a proposta de política industrial do PT agradou, porém, a ala nacionalista da Fiesp. Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do PT à Presidência, divulgou, na última terça-feira, um documento para discussão chamado Diretrizes para uma Política Industrial e de Comércio Exterior.
Em linhas gerais, a idéia do PT é assegurar o desenvolvimento da indústria brasileira por meio de taxas de juros baixas, linhas de financiamento de longo prazo, apoio às pequenas e médias empresas, reconstituição das câmaras setoriais, estímulo às exportações, controle das importações predatórias e incentivo ao desenvolvimento científico e tecnológico. Para Luiz Fernando Furlan, diretor de comércio exterior da Fiesp, a proposta do PT está recheada de boas intenções, mas não coloca o preto no branco.
A proposta tem pontos favoráveis, mas o que a indústria quer é um compromisso para levá-las adiante com metas e prazos. Zeke Wimert, presidente do conselho da Câmara Americana de Comércio de São Paulo, disse que as idéias do PT são muito boas, principalmente o apoio às pequenas e médias empresas. Criticou, porém, a falta de uma estratégia para transformar as boas intenções em realidade e a sugestão para a volta da discriminação entre empresas de capital nacional e de capital estrangeiro. Ricardo Young, coordenador do PNBE (Pensamento Nacional das Bases Empresariais), disse que ficou decepcionado porque não viu nada de novo na proposta.
Fiquei chocado ao ver que o documento, feito às pressas, é apenas uma
declaração de boas intenções no nível do bom senso. Segundo Young, o documento omite questões importantes para uma política industrial, entre elas a reforma da Justiça do Trabalho. Ingo Ploger, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha de São Paulo, disse que o programa do PT veio muito em cima das eleições, dificultando o debate das propostas. É uma pena porque o processo de discussão é enriquecedor. O PT tem idéias bastante interessantes, tais como a desoneração das pequenas e médias empresas, que poderiam ser aprofundadas.
Roberto Nicolau Jeha, secretário-geral da Fiesp e integrante da ala nacionalista da indústria paulista, disse que a proposta do PT está mais próxima das preocupações do industrial brasileiro do que a teologia neoliberal de Fernando Henrique Cardoso. Jeha espera que a política de adensamento industrial, em elaboração pelo secretário-executivo da Camex (Câmara de Comércio Exterior), José Roberto Mendonça de Barros, ganhe mais espaço no provável segundo mandato de FHC.
Mas essa política ainda é uma promessa. Se tiver de comparar a antipolítica industrial do governo com o projeto do PT, sem dúvida o projeto do Lula é o melhor para a indústria brasileira. Para Jeha, um dos pontos positivos da proposta do PT é o fortalecimento do Ministério da Indústria e Comércio para impedir a continuação do processo de desnacionalização da indústria.
A proposta do PT passa por um aspecto que é fundamental: um pacto entre a burguesia industrial brasileira e a classe trabalhadora.


