‘‘Candidato do PT
teve o displante de
prometer 14 milhões
de empregos’’Folha - Em todas as pesquisas a questão do desemprego desponta como principal preocupação da população. Qual a saída?
Ciro - Se nós entendermos o que está causando o desemprego fica óbvia a solução. Pela retórica do governo é a modernização, as dores do parto da globalização, da troca do homem pela máquina. O governo aproveita 10% da causa, que é essa, e generaliza. Mas 90% das causas do desemprego estão na estagnação econômica, que é provocada pelo juro alto, pelo desequilíbrio na conta pública, pela gestão temerária do governo. Porque emprego é consequência de investimento, investimento é consequência de poupança. No Brasil, a poupança pública é negativa, por causa do déficit violento, e a privada é pequena, 15% do PIB. Como o governo está com um buraco gigantesco, o que ele faz? Ele drena toda essa poupança privada para equilibrar a conta pública, expandindo o endividamento, e aí o que acontece? O juro alto, que é a forma do governo tirar esse dinheiro da iniciativa privada, inviabiliza a produção e a economia do país pára. Anualmente, 1 milhão e 900 mil jovens chegam por ano ao mercado de trabalho.
Folha - Como atender esta demanda? E como o sr. encara as propostas dos outros candidatos para o problema do desemprego?
Ciro - O Lula teve o displante de prometer a geração de 14 milhões de empregos. Isso é uma mentira, uma estupidez! O Brasil tem 9 milhões de pessoas desempregadas. Então, se depender do Lula, teremos que importar desempregados da Bolívia, do Paraguai, do Mercosul, para poder entupir os empregos que ele vai criar. Depois, vem o FHC, que pilota a maior taxa de desemprego da história do País, dobrou a taxa de desemprego que eu entreguei para ele como ministro da Fazenda (4 pontos), é o atual presidente e fica prometendo para o futuro 7 milhões e 800 mil empregos, uma mentira grosseira porque o país não cresce desse jeito. Só haverá emprego no volume necessário se o Brasil voltar a crescer na direção correta. O número é básico, é técnico: se você quer criar 1 milhão e 900 mil novos empregos por ano, o país tem que estar crescendo a 6% ao ano. Para isso, a taxa de poupança necessária é de 30% do PIB, a taxa de poupança atual é 15%, e o buraco das contas do governo gera juros altos. Como é que vai gerar empregos? No ano que vem, independentemente do que se queira dizer ao povo, mentir para essa gente sofrida, a produção vai cair no País e vai aumentar dramaticamente o desemprego. Quem quiser votar em Papai Noel mentiroso, vota. Agora, pelo amor de Deus me dê uma chance de guardar na memória que eu andei falando isso aqui. Anote, porque depois eu vou pegar o arquivo da Folha e dizer: ‘‘Olha aqui o que foi dito.’’ O povo se queixa dos políticos brasileiros que prometem e não cumprem, e os político que são sérios somem do debate. Essa crise atual eu previ ela inteira, não por profecia, mas porque estou dedicado a estudar isso. Eu fui ver a experiência do México, da Argentina, dos Tigres Asiáticos, fui lá visitar, fui consultor das Nações Unidas durante um ano, eu conheço isso, tenho entrevistas e artigos meus escritos há dois anos atrás sobre a crise que viria. Essa é a razão de eu ter rompido com essa gente.
Folha - Como o sr. encara a crítica de que as esquerdas brasileiras, fragmentadas, não terem um projeto comum de aceitação popular?
Ciro - O que o Brasil precisa não é de uma solução de esquerda ou vista como tal. O Brasil precisa celebrar um novo consenso, um novo pacto de centro-esquerda. O que é basicamente, na nossa sociologia, tirar a pequena e média empresa, a classe média, a agricultura de médio e pequeno porte da sua tradicional aliança - baseada no medo - firmada com setores da ultradireita reacionária, fisiológica e corrupta do Brasil. Esses setores são honestos, são patriotas querem o bem do País, têm sensibilidade social, mas se vêem levados a votar no lado mais viciado da política com medo do sectarismo de esquerda. Essa é uma deformação no processo político brasileiro causado pelo isolamento do PT, pelo radicalismo de goela, pela falta completa de compreensão não só da economia, mas das necessidades estratégicas do Brasil em se integrar mundialmente, em superar o atraso tecnológico, em fixar uma verdadeira política industrial, agrícola, de comércio exterior. Eles (FHC e Lula) não têm consideração nenhuma sobre isso. E é por isso que eu aceitei o desafio de contruir uma outra alternativa que seja de centro-esquerda.
Folha - O sr. acha que o discurso do PT está ultrapassado?
Folha - Completamente. Se você esmiuçar, sobra dali uma mistura de ressentimento, algo desagradável que a ninguém mais encanta, com mirabolâncias sociais. Voluntarismo, tipo essa de 14 milhões de empregos. Com que grana, ‘‘cara pálida’’? Eu sei o que é ter um pai desempregado, vim de uma origem humilde. E estes caras, os dois, se consideram autorizados a mistificar, dizendo que vão criar milhões de empregos.
Folha - De que forma o Brasil pode modernizar seu processo político eleitoral?
Ciro - Eu sou parlamentarista e acho que um dia o Brasil vai amadurecer e nós vamos evoluir para essa instituição moderna. Enquanto não fazemos isso, vamos aperfeiçoar o presidencialismo. Eu defendo principalmente o voto distrital e o financiamento público de campanhas, para começar a eliminar o primeiro grande ponto de apodrecimento de política, que é a relação promíscua entre dinheiro, político e candidatura. Hoje, no Brasil, você tem uma grande pirâmide invertida. A sociedade é muito pobre e pouco privilegiada e a representação parlamentar é pequena e os privilegiados têm uma representação gigantesca. E isso não permite ao país sair do que eu chamo de paradoxo da legitimidade, porque dentro da democracia quem muda as leis é o Congresso, e o Congresso é constituído basicamente pelas perversões das leis que ele próprio criou. Por exemplo: o voto no Paraná vale 1/8 do que vale o voto no Acre. Que dia isso vai mudar? O paradoxo da legitimidade só se supera se você construir consenso fora, porque o Congresso não vota contra a opinião pública formada.

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