'Propina era chamada de assistência social'
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terça-feira, 24 de julho de 2012
Fernando Mello <br> Folhapress 
Goiânia - O agente da Polícia Federal Fábio Alvarez Shor afirmou ontem, durante audiência do processo contra o grupo do empresário Carlinhos Cachoeira, que a suposta quadrilha usava o termo ''assistência social'' para tratar de propinas pagas a servidores públicos. Alvarez Shor é uma das testemunhas da acusação no processo. A audiência foi observada pelo próprio Cachoeira e outros réus, que no entanto não foram ouvidos ontem.
''(O termo) assistência social era citado constantemente nos áudios, e depois constatamos que se tratava de propina paga aos servidores públicos'', disse o policial. Durante o depoimento, o juiz Alderico Santos pediu que a testemunha explicasse quais fatos permitiam que ele descrevesse a função de cada pessoa no grupo, segundo o Ministério Público Federal, comandado por Carlinhos Cachoeira. Alvarez disse que Geovani Pereira era chamado de contador pelos próprios colegas. Segundo o agente, Cachoeira era o ''líder'', uma vez que ''a própria organização assim o chamava''.
Abatido
Abatido e visivelmente mais magro - seus familiares estimam que ele emagreceu 18 quilos - Cachoeira sentou-se próximo a outros réus do caso, como o ex-vereador Wladimir Garcez e o sargento da reserva da Aeronáutica Idalberto Matias, o Dadá. Na audiência de ontem, foram ouvidas testemunhas de acusação - quatro policiais federais que atuaram na operação. O Ministério Público Federal denunciou 81 pessoas à Justiça.
O juiz que julgará o caso é Alderico Santos, da 11 Vara Federal de Goiânia, que assumiu a ação depois que o juiz Paulo Augusto Moreira Lima pediu licença afirmando ter sofrido ameaças. No começo da sessão, os advogados de defesa pediram que a audiência fosse adiada, argumentando o direito de ampla defesa. Os pedidos, no entanto, foram negados pelo juiz.
A defesa de Cachoeira argumentou que a audiência não poderia ser realizada pois as companhias telefônicas ainda não enviaram dados sobre alvos de interceptações telefônicas. Segundo a defesa, houve uso de ''senhas genéricas'', sem identificar pessoas que tiveram seu sigilo telefônico quebrado.
Ao negar o pedido de adiamento, o magistrado argumentou que ''em face do princípio do contraditório, a prova produzida nesses autos não terá repercussão no processo desmembrado, o que vale dizer, não poderá ser utilizada a título de prova emprestada''.
Assassinato
Testemunha da ação penal contra o grupo de Carlinhos Cachoeira, o agente da PF Fábio Alvarez Shor também disse ontem que o agente Wilton Tapajós, morto na semana passada, foi abordado por policiais militares durante diligência da Operação Monte Carlo.
A apuração sobre o assassinato de Tapajós, que, assim como Shor, era agente da Polícia Federal e trabalhou na Operação Monte Carlo - que levou à prisão do empresário - não estabeleceu relação entre a morte e a operação, embora a hipótese de queima de arquivo tenha sido levantada pela polícia (que também suspeita de acerto de contas de dívidas do morto).
Shor falou na condição de testemunha da acusação contra o grupo de Cachoeira. Questionado pelo Ministério Público Federal, Shor disse que Tapajós foi abordado por PMs durante uma missão de vigilância na casa de Sônia Regina de Melo, uma das 81 pessoas denunciadas pelo Ministério Público Federal.
A Procuradoria afirma que Sônia, servidora da Delegacia Regional de Luziânia (GO), tinha o papel de cooptar policiais que dariam cobertura às atividades do grupo de Cachoeira e também fazia pagamentos de propinas.
Segundo Shor, as diligências no local eram constantes, pois a casa da servidora era usada para encontro com policiais. Ao ser abordado durante a vigília, Tapajós afirmou aos policiais que estava lendo a Bíblia enquanto esperava seu chefe ligar. Os PMs então deixaram o local.
Shor disse que ele mesmo chegou a ser abordado por PMs em outra ocasião, quando seguia outro investigado. O agente disse que não era possível afirmar com certeza se a abordagem se deu a mando de alguém. ''Poderia ser uma abordagem ostensiva'', questionou Dora Cavalcanti, advogada do empresário. O procurador Daniel de Resende afirmou na audiência que várias diligências da PF coincidiram com abordagens policiais, pois nos locais onde funcionavam bingos e nas casas de investigados havia uma espécie de segurança informal feita por policiais.


