Propina eficaz
Conforme o Ministério Público, resumidamente, o governo paranaense pegou R$ 35 milhões de propina em troca de supressão de obras, duplicação, viadutos e contornos, muitas das quais deram origem a tragédias. Lula costumava irritar-se a cada referência à palavra por achá-la ofensiva em tratos costumeiros, como aparece claramente nos eventos em que foi condenado. Claro que não é a mesma coisa que a gorjeta que se dá ao garçom no restaurante.
O fato é que no momento em que a Lava Jato enquadra beneficiários da "Integração" surge a notícia de que o Ministério de Infraestrutura cogita a concessão de alta de até 25% em rodovias do sul e sudeste, implantadas na gestão de Lula (incomparáveis as tarifas que daí advieram com as extorsivas praticadas no Paraná, como se vê no caso das aplicadas ao lado em Santa Catarina) para restabelecer o equilíbrio financeiro que estaria comprometido.
É evidente que são modelos diferenciais e nas licitações o governador Roberto Requião botou a Copel no certame, obviamente com mera participação para manter o tônus da pregação anti pedágio, o que não o livrou de referências na Lava Jato que tanto o irritaram.
Observa-se com essa orientação federal que não haveria restrições técnicas ou morais sobre o sistema, até porque extremamente diferenciado do nosso, e que as revelações de Curitiba não contaminariam a visão geral do processo, apesar da gravidade das anomalias aqui apuradas.
Tal pai
A morte do jornalista Ricardo Boechat, âncora de rádio e tv da Band, se junta à sequência de tragédias que marcam o nosso cotidiano. Poucos comunicadores da área têm o sentido tanto da concisão quanto da coloquialidade, credibilidade forte em registros de notícias e das análises bem estruturadas. Engajado na informação e menos em causas específicas como o seu pai Dalton Boechat, que integrando os quadros do Itamarati optou por servir na Petrobras como relações públicas, o que indica adesão ao fermento do "petróleo é nosso". Num encontro no Guairão, ainda em construção, crente num futuro promissor referia-se à futura frota de petroleiros da estatal e com acentuado romantismo lembrava que dentro em pouco teríamos não navios com bandeira liberiana, e lá no mastro, aí declamando Castro Alves, "o auriverde, pendão da minha terra// que a brisa do Brasil beija e balança// estandarte que a luz do sol encerra// nas asas divinas da esperança..." E fluía o tom patriótico nos versos condoreiros para encerrar num anátema: "antes te houvessem roto na batalha// do que servirdes a um povo de mortalha!//" Do emotivo direto à consciência e desta à ação.
Pesquisa preocupante
Maioria esmagadora de deputados e senadores apoia a reforma previdenciária, porém rejeita o endurecimento da idade mínima, segundo sondagem da BTG Pactual. Desejam que seja menor que 65 para homens e 62 para mulheres. O que aparenta ser uma questão singela é da maior gravidade e que deve reproduzir-se em outros aspectos da proposta. Isso aponta para maior mobilização doutrinária em cima do tema, esse sim, a bala de prata a que se referia Collor.
Haverá também uma oposição orquestrada para explorar o que há de impopular no projeto pelas corporações e estamentos, razão pela qual se estabelecerá um "crê ou morre" como divisor de águas. Na Câmara há 82% de favoráveis, e no Senado, 89%. Divisões se fixarão em detalhes, mas o tom geral da campanha será o de que se trata do maior problema, claro e bem definido, de desigualdade do país, um desafio à esquerda que aparentava manter o monopólio da temática. Segundo Norberto Bobbio, a questão da igualdade é bandeira essencial da esquerda, e dos ditos socialistas, enquanto a da direita é o máximo da liberdade. Bobbio foi senador vitalício na Itália e se definiu como uma ponte entre as concepções socialistas e as liberais.
Luta renhida
Parece inevitável, e até pelo tom de sua gestão, que Rafael Greca será candidato à reeleição, posto que não signifique apoio do governador Ratinho Junior, que conta com outros postulantes da sua base aliada como o próprio Ney Leprevost (que disputou o segundo turno da última eleição) e o deputado estadual mais votado, Fernando Francischini, que deve comandar a Comissão de Constituição e Justiça com a desistência de Nelson Justus. Candidatos fortíssimos para a anêmica oposição onde há poucos nomes como o de Gustavo Fruet, ainda que não esteja afastada a hipótese de Roberto Requião tentar repetir o feito de 1985, quando derrotou Jaime Lerner. Só que naquela época José Richa o carregou às costas, como São Cristóvão levando Jesus. E ainda tinha Maurício Fruet, Alvaro Dias, Canet Júnior, Aníbal Curi.
Folclore
Abalos decorrentes de tumultos nem sempre cicatrizam cedo, como se deu com a repressão de Alvaro Dias em 1988 sobre os professores. Já a prisão de Beto Richa acelerou sua derrota ao Senado. A oposição apostou todas as fichas no massacre do Centro Cívico, mas um dos seus mais destacados integrantes, o ex-secretário de Segurança, Fernando Francischini, se elegeu para deputado estadual com 427.749 votos. Parece que a repressão o favoreceu na linha geral da vitória de Bolsonaro, um chute no pau da barraca.

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