Promotoria pede condenação de Guerra
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domingo, 11 de janeiro de 1998
Patrícia Zanin 
Londrina
Arquivo FolhaFio da navalhaBrandão: pedido de quebra de sigilo bancário esbarra na imunidadeA ação civil pública proposta pela promotora Kyu Soon Lee contra o ex-prefeito de Faxinal, Dirceu Dutra Guerra (PDT), pede a condenação dele por improbidade administrativa, a suspensão de seus direitos políticos pelo prazo de cinco a oito anos e o ressarcimento de R$ 60 mil, devidamente corrigidos. Ele é acusado de ter desviado verbas de um programa estadual que previa reforma do parque de exposições de Faxinal. A Promotoria e uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) instaurada pela Câmara de Vereadores de Faxinal descobriram que o desvio das verbas públicas, envolveu também o ex-secretário de Estado da Agricultura, Hermas Brandão, que deixou o cargo na semana passada, o deputado estadual Milton Púpio (PTB) e o Depósito Navarro de Material para Construções Ltda.
Do total de 60 mil repassados pela Codapar (Companhia de Desenvolvimento Agropecuário), através do governo do Estado para a reforma do parque, R$ 40 mil foram parar nas contas bancárias de Brandão (R$ 15 mil), Púpio (R$ 15 mil) e Guerra (R$ 10 mil). A quebra do sigilo bancário deles foi requerida à juíza Luciani Regina pela promotora. A denúncia sobre desvio de verba foi feita ao Ministério Público pelo Sindicato Rural de Faxinal.
A ação civil pública, que ainda não foi julgada, é um dos principais recheios do relatório da CEI, aprovado no final do ano passado por oito dos nove vereadores da Câmara de Faxinal. O relatório tem 132 páginas e reúne também os cheques depositados indevidamente nas contas bancárias dos envolvidos, laudos técnicos da obra não concluída e até mesmo a prestação de contas da reforma não executada. A Folha teve acesso a todos os documentos.
Brandão e Púpio não foram citados na ação. A ligação deles com o desvio de recursos ficou evidenciada somente depois que o Ministério Público já havia oferecido denúncia contra o ex-prefeito e o Depósito Navarro. Mas por serem detentores de cargos públicos - os dois são deputados - eles têm direito a foro privilegiado. Caberá à Procuradoria Geral de Justiça propor ou não uma ação ou um procedimento investigatório contra eles.
Em Faxinal, a ação civil pública de responsabilidade por lesão causada ao patrimônio público inclui o Depósito Navarro porque a empresa venceu a licitação da prefeitura para a reforma no parque de exposições e não executou as obras. A promotora também requereu a anulação da licitação, realizada através de carta-convite, válida apenas para obras que não ultrapassem R$ 38,5 mil.
Além disso, a Promotoria e a CEI encontraram irregularidades na comissão de licitação. De acordo com lei federal, a comissão deve ser composta por servidores pertencentes aos quadros permanentes da administração. A prefeitura desrespeitou a lei ao ter como membros da comissão o sobrinho e o cunhado do ex-prefeito, Arildo Dutra Guerra e Ademir Moraes de Farias, respectivamente, ambos ocupantes de cargos comissionados e fora do quadro geral.
A Promotoria constatou ainda o direcionamento da carta-convite e a não existência de concorrência. Além disso, o Ministério Público descobriu que o engenheiro responsável pelo projeto da reforma do parque, Fernando Navarro Filho, é irmão do sócio-proprietário do Depósito Navarro. Outra irregularidade comprovada foi a entrega fora do prazo da proposta e a não observação por parte da prefeitura das ações de execução fiscal contra a Navarro. A lei de licitações prevê regularidade fiscal dos concorrentes. A lei orgânica do município também veda à prefeitura o direito de contratar com pessoa jurídica em débito.
Além do ressarcimento dos recursos recebidos indevidamente, em conjunto com o ex-prefeito, a ação defende a proibição de que contratos ou convênios sejam firmados entre a empresa e o poder público num prazo de cinco anos.
Todas as denúncias envolvendo a empresa e o ex-prefeito, que acabaram respingando no ex-secretário Hermas Brandão e no deputado Milton Púpio, começaram a ser investigadas pelo Ministério Público, com base em uma solicitação do Sindicato Rural, em fevereiro de 97. O sindicato é dono do parque de exposições do município, que seria alvo da reforma cujo recurso foi repassado ao município, mas que foi parar na conta particular dos políticos.
O relatório da CEI, que aproveita as investigações para lembrar aos vereadores que a função deles é fiscalizar e controlar, diretamente, os atos do poder Executivo, incluídos os da administração indireta e fundacional, foi encaminhado à Procuradoria Geral de Justiça, ao Tribunal de Contas e ao Ministério Público. A CEI também constatou omissão da Secretaria Estadual de Agricultura e da prefeitura na fiscalização da reforma no parque de exposições do município, cujos recursos foram desviados.
O valor que causou enriquecimento ilícito aos requeridos deve ser restituído integralmente. Estão comprovados os atos de improbidade praticados. Não resta outra alternativa ao poder judiciário senão a aplicação das penas. A impunidade não é a regra e que os detentores do poder também sejam punidos quando praticam atos de improbidade, defende a promotora Kyu Soon Lee, na ação encaminhada à Justiça.


