Prometeísmo e faz de conta afastaram eleitor
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de março de 2009
Janaina Garcia<br>Reportagem Local 
A disposição dos candidatos Barbosa Neto (PDT) e Luiz Carlos Hauly (PSDB) de aprofundarem as propostas de governo apresentadas em 2008 agora, nesse novo segundo turno determinado pela Justiça Eleitoral, se perdeu em um mar de promessas: em menos de um mês de campanha de rua, não faltaram, de ambas as partes, uma avalanche delas calcadas ora na amizade e alinhamento com políticos, ora sem quaisquer garantias econômico-financeiras de que, a partir de maio, quando o eleito tomar posse, sairão do discurso para a prática. O resultado se vê nas ruas: não faltam eleitores desmotivados.
Esse quadro iniciado com a anulação de todo um turno eleitoral, em dezembro, ganhou forças nas últimas semanas no que se refere às consequências sobre o ânimo do eleitor em voltar às urnas pela terceira, face ao proposto pelo pedetista e pelo tucano. Comuns entre si, as observações foram feitas à FOLHA por dois analistas políticos que acompanharam de perto um contexto ainda marcado pelas tentativas enérgicas muitas, com êxito em instância superior , por força dos partidos, de impedir que veículos da imprensa e mesmo blogs divulgassem ao londrinense o que as pesquisas de opinião não internas vinham dizendo da disputa.
Para o professor de Filosofia Política Elve Censi, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a falta de entusiasmo do eleitor da cidade se explica ainda pelo desgaste com que o mesmo vinha observando a classe política local, marcada, em 2008, por sucessivos escândalos no âmbito do poder Legislativo.
Já vínhamos de um processo de desgaste após um ano todo de denúncias envolvendo vereadores; junte-se a isso o imbróglio jurídico envolvendo o (Antonio) Belinati (referência ao recurso final do ex-prefeito de registro cassado, ainda nem interposto no Supremo Tribunal Federal) e a insegurança que isso gera, mais o faz de conta que virou a campanha, sem propostas bem delineadas problemas mais graves trabalhados, criticou. Para o estudioso, as apresentações aconteceram de forma muito genérica: é preciso apresentar ao eleitor a viabilidade do que é proposto, mas com a ciência de que se tem adiante três anos e meio, não 20 anos. Isso gera descontentamento nos eleitores, que já desconfiam, ao passo que a política deveria adotar o choque de realidade.
Censi ilustrou o que ele avalia como falta de viabilidade duas propostas/promessas de campanha apresentadas, separadamente, pelos candidatos. O Barbosa promete a educação em tempo integral, mas não coloca algumas perguntas: quanto isso vai custar? Como será feito? Contrataria professores, faria parcerias com a sociedade? Esse é o tipo de proposta que implica em um projeto pedagógico a cada região; não é só dar uma bola e deixar as crianças jogando. Sobre Hauly, atacou a proposta/promessa de transporte público a R$ 1, aos finais de semana, e passe-livre aos estudantes. Mas quantos estudantes temos, de todas as universidades e mais todo o Ensino Médio, por exemplo? Quem pagaria essa conta: o poder público? Se não, isso não seria repassado a todos os usuários do sistema? Resultado: quem paga a conta é o trabalhador, analisou. E concluiu: É exigir demais do eleitor que ele chegue motivado para votar.
Já o professor de Sociologia da Faculdade Pitágoras, Marco Rossi, avaliou que a campanha do novo segundo turno foi extremamente fraca. O horário eleitoral foi do jeito clássico: com muita prmessa, muita tentativa de personalizar a eleição, quando deveriam ter pensado a cidade em 20 anos. Virou um
prometeísmo sem fundo, o que afasta ainda mais o eleitor, considerou.
Rossi ponderou que o novo processo, até mesmo pela extemporaneidade, foi apático. Na opinião do sociólogo, contudo, isso poderia ter sido contornado com respostas mais realistas ao que ele avalia como crise em um setor primordial da economia local: Londrina é uma cidade em que os serviços estão caindo, mas os partidos e mesmo o marketing dos candidatos não exploraram a solução concreta diante desse quadro. Foram campanhas frágeis, o que deixa, para muita gente, a impressão de que nem tem eleição amanhã.


