Os três projetos de lei colocados sob suspeita de terem sido ''pagos'' por empresários foram aprovados pela Câmara de Londrina, no final de 2007, com apenas uma abstenção e dois votos contrários. O levantamento foi feito pela FOLHA a partir de gravações das sessões do Legislativo e consultas aos próprios vereadores. Em uma dessas gravações, chamam a atenção também os comentários feitos no plenário acerca da aprovação do substitutivo que beneficiou o Mercado Guanabara.
Apresentado pelo ex-vereador Henrique Barros (sem partido) - preso no início de janeiro após ser flagrado com R$ 9,9 mil supostamente recebidos de empresários -, o substitutivo nº 2 transformava o mercado municipal da Zona Sul em ''centro comercial'' e flexibilizava a concessão de alvarás dentro do mesmo. O instrumento, que alterou artigos do Código de Posturas do Município, foi aprovado em segunda e última discussão pela Câmara em 20 de dezembro do ano passado, por unanimidade.
Como a votação foi apenas simbólica, não é possível saber, por meio de ata da sessão, os nomes dos edis que votaram favoravelmente ou se ausentaram. O vídeo fornecido pela própria Câmara deixa claro, contudo, que não houve votos contrários ou abstenções. Para reforçar, 16 dos 18 vereadores admitiram à reportagem que votaram a favor do substitutivo - não entram nessa conta Barros, autor da proposição, nem Sidney de Souza (PTB), que como presidente da Casa não precisou votar.
O vídeo mostra também que, logo após a votação, Souza disse ao microfone que Barros ''agradecia'' a aprovação da matéria. ''O substitutivo número 2 contempla o Mercado Municipal do Guanabara e o vereador agradece o voto dos vereadores'', anunciou o presidente, a pedido de Barros. Fora do microfone, mas próximo à mesa, um vereador comentou: ''É brincadeira, hein, Henrique. Teu padrinho de casamento...'' Outro completou, rindo: ''Cê vai queimar no fogo do inferno!'' Alexandre Guimarães, dono do Mercado Guanabara e um dos empresários apontados pelo Ministério Público (MP) como ''vítimas'' do esquema de concussão (extorsão praticada por agente público) na Câmara, era amigo íntimo de Barros e chegou a ser convidado para apadrinhar seu matrimônio.
Já na votação do substitutivo ao projeto de lei nº 239/2007, que determinava mudanças de zoneamento e supostamente favorecia um empreendimento do empresário Carlos Messas (proprietário da churrascaria Galpão Nelore), a aprovação se deu com apenas um voto contrário, da vereadora Sandra Graça (PP). Marcelo Belinati, também do PP, garante que se lembra de ter votado contrariamente à matéria e acredita que a Mesa pode ter se ''equivocado'' ao não registrar seu voto. Nove vereadores admitiram ter sido favoráveis e quatro - Gláudio de Lima (PT), Luiz Carlos Tamarozzi (PTB), Osvaldo Bergamin (PMDB) e Renato Lemes (PMR) - afirmaram que ''não se lembram''. Jamil Janene (PMDB) disse que estava ausente no plenário.
O terceiro projeto de lei envolvido nas suspeitas, que autorizou o Instituto de Desenvolvimento de Londrina (Idel) a doar um terreno à indústria de metais sanitários Flex, também foi aprovado com apenas um voto contra (Marcelo Belinati) e uma abstenção (Sandra Graça) no dia 19 de dezembro. Quatorze vereadores confirmaram à reportagem que votaram ''sim''.
A indústria agraciada com o terreno pertence ao empresário Maurício De Biagi, outro interrogado pelo MP. Apenas quatro meses antes, ele já havia sido beneficiado pela doação de uma área para outra empresa sua, a Higiban. Naquela ocasião, a aprovação do projeto na Câmara se deu por 12 votos. O vídeo da sessão ordinária de 16 de agosto mostra que Barros fez questão de justificar seu voto favorável: ''(...) quero dizer que realmente o empresário é sério, vai construir, e nós não furtamos da responsabilidade de ter doado essa área'', declarou em plenário.

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