Brasília Uma disputa política sobre o formato do Programa Fome Zero e do Conselho de Segurança Alimentar (Consea) marca a estréia do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O contencioso, porém, começou no ano passado, ainda na campanha eleitoral. De um lado está o ministro extraordinário de Combate à Fome, José Graziano da Silva, e, de outro, o bispo de Duque de Caxias, dom Mauro Morelli. Tudo passaria despercebido não fosse dom Mauro pôr a boca no trombone.
Há uma semana, chegou a admitir que faltou diálogo para a definição do principal projeto do governo. ''Ficamos no nível técnico, dando trombadas'', desabafou. O bispo escancarou o mal-estar ao contar que havia sido vetado para integrar o Consea. Depois da turbulência, Lula deu uma ordem: quer dom Mauro neste conselho de qualquer jeito.
Graziano negou o veto ao religioso. Para o bispo, porém, alegou que o ''senão'' a seu nome vinha de evangélicos, especialmente do PL e da Igreja Universal do Reino de Deus, os novos aliados do PT. ''Queriam me indispor com quem sempre tive boas relações.''
Ainda na campanha, o bispo foi convidado por Lula para ser ministro de Combate à Fome, mas não aceitou. Pior: disse publicamente, durante um seminário para apresentação do Fome Zero, que não concordava com a criação de um ministério, mas de uma secretaria especial.
Nem um mês depois da advertência, o programa foi mudado porque Lula acatou a sugestão de dom Mauro. Na composição da equipe, porém, Graziano tornou-se ministro extraordinário. Após o primeiro conflito, vieram outros. Idealizador do principal programa social do governo, Graziano não gostou de ver os cupons de alimentação (um dos pilares do projeto) como alvos de uma saraivada de críticas. Entre as vozes discordantes estão dom Mauro, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) e a coordenadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns.
O projeto-piloto será lançado no dia 3 de fevereiro, em Guaribas cidade do Piauí com um dos piores índices de desenvolvimento humano do Brasil. A proposta prevê que famílias carentes recebam cartões magnéticos no valor de R$ 50, em média, mas o dinheiro só pode ser usado na compra de alimentos. Além disso, as famílias são obrigadas a apresentar notas fiscais. A medida foi considerada discriminatória. O ministro, no entanto, defendeu os recibos com veemência.

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