Procuram-se líderes nacionais

Especialistas em Ciência Política analisam o cenário das disputas de poder no País e a necessidade de renovação dos quadros

Pedro Moraes - Grupo Folha
Pedro Moraes - Grupo Folha

Procuram-se líderes nacionais
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A história da política brasileira é marcada por poderosos vultos e sobrenomes que, se ainda não se mantêm em atividade, dão nomes às ruas das cidades. No entanto, desde 2013, quando eclodiram manifestações por todo o País, a renovação das lideranças vem se mostrando mais lenta do que o abalo nas reputações dos políticos e dos partidos. A operação Lava Jato, por exemplo, em suas várias fases atingiu em cheio nomes das mais importantes legendas nacionais, como o PT, o MDB e o PSDB. “Há um vácuo deixado pelos partidos que não vêm apontando um caminho para a renovação, mas o fato é que não há herdeiros. A liderança precisa ser conquistada”, avalia Elve Cense, professor de Ética e Filosofia Política na UEL (Universidade Estadual de Londrina).

 

Um fato sobre a fragilidade das lideranças pôde ser observado no último processo eleitoral. A renovação na Câmara dos Deputados foi de 47% e um recorde foi registrado no Senado, que recebeu 46 novos parlamentares, o que representa 85%. Na cena política, os movimentos mostram que a briga do poder não respeita hierarquia. Poucos meses depois da posse, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro nas eleições, os governadores do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), e de São Paulo, João Doria, descolaram sua imagem e apresentaram seus nomes como postulantes para o Planalto em 2022. “O sistema político precisa produzir lideranças para ocupar as posições de comando, isso é natural. Mas o fato é que os nomes mais conhecidos nacionalmente perderam força e abriram caminho para os outsiders”, analisa Renato Perissinotto, professor de Ciência Política da UFPR (Universidade Federal do Paraná).



 

As universidades e os sindicatos cumpriram ao longo dos anos o papel de gerir novas lideranças. No entanto, depois da redemocratização após o fim dos anos de governos militares, a profissionalização da política provocou um descolamento da sociedade. É o que explica Cense. “Esses centros tradicionais críticos e de organização foram substituídos pelas siglas, que ao longo dos anos foram inseridas totalmente na burocracia da máquina pública e dificultam a manutenção do espaço para os jovens. Muitos deles migram para as ONGs”, detalha. Outro fator responsável pela pulverização das lideranças é a enorme fragmentação partidária e de ideias, o que permite a perpetuação de antigos grupos. “Se observarmos as assembleias legislativas, inclusive a do Paraná, notamos que parte substancial dos deputados são filhos dos velhos políticos. Não se pode falar de uma renovação”, avalia.


PERFIL 

Outro ponto de reflexão é sobre o perfil dos novos políticos. Além dos neófitos saídos dos protestos de 2013, como as lideranças do MBL (Movimento Brasil Livre), que buscaram as vias formais para ingressar no debate, a chegada de donos de fortunas na política partidária mostra um desequilíbrio de forças que deve se intensificar ainda mais com as recentes definições dos fundos partidários. “Os partidos receberão os recursos e definirão como usar. Dificilmente irão direcionar para novas pessoas. Mesmo os movimentos de juventude dos partidos parecem ter desaparecido. Outro caso relevante é da acusação do laranjal do PSL”, aponta Cense, sobre o caso em que candidatas teriam sido usadas para repassar campanhas de homens.

Apesar de a cena política atual demonstrar um duelo pelo poder, o surgimento de novos nomes ainda depende dos partidos políticos, segundo a opinião do professor Renato Perissinotto. “Essas instituições se mantêm importantes, apesar de estarem enfraquecidas. Mesmo que os políticos se elejam com discurso de demonização da própria política, para se seguirem seus trabalhos dependem das tensões de poder da estrutura formal”. Há ainda algumas experiências locais que propõem novos comportamentos que podem afetar a divisão de poder no jogo político, como por exemplo os mandatos coletivos, em que um grupo tem influência sobre as decisões. Para o cidadão, cabe a reflexão sobre o que se espera acerca dos futuros nomes que serão alçados à liderança do País, dos estados e das cidades.


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