Brasília - Sem condição de quebrar sigilo bancário, fiscal e telefônico de seus próprios membros, o Congresso desistiu de investigar deputados e senadores envolvidos no esquema de fraude na licitação e compra superfaturada de ambulâncias para prefeituras com recursos do Orçamento da União. Pessoalmente, os presidentes da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), lavaram as mãos e entregaram o caso ao procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, depois de uma visita de cerca de meia hora. Os dois estavam acompanhados dos corregedores da Câmara, Ciro Nogueira (PP-PI), e do Senado, Romeu Tuma (PFL-SP).
Eles alegaram que nenhuma das duas Casas do Congresso tem condições de investigar a participação dos parlamentares, pois fala-se que a lista de suspeitos teria 283 congressistas. Destes, 16 já tinham começado a ser investigados pela Comissão de Sindicância da Câmara e outros 14 seriam incluídos na lista - aqueles que as escutas telefônicas os flagraram nas negociatas. ''Nós não temos condição de quebrar sigilo bancário, fiscal e telefônico; a Procuradoria da República tem'', disse o corregedor Ciro Nogueira. ''A Procuradoria vai separar o joio do trigo. Vai acelerar a produção de provas. Depois, informará o Congresso sobre a conclusão dos trabalhos'', afirmou Calheiros.
Rebelo disse que o Congresso está interessado na apuração acelerada das investigações para que haja punição exemplar dos que tiveram a participação nas irregularidades. ''Nem a Câmara nem o Senado têm os instrumentos para produzir provas que possam levar à punição'', disse Rebelo. ''O procurador vai começar a nos mandar as conclusões dentro de duas semanas.''
No fundo, a decisão de Rebelo e Calheiros teve por motivação manter o Congresso longe do problema das sanguessugas. Com 283 parlamentares suspeitos de envolvimento com o esquema de fraude na licitação e compra de ambulâncias a preços superfaturados, se eles começassem a ser investigados na Câmara e no Senado poderiam inviabilizar qualquer tipo de votação. Afinal, trata-se de mais da metade da Câmara (257 deputados).
A decisão das Mesas das duas Casas do Congresso mereceu críticas. ''O que os dirigentes do Congresso fizeram foi nada mais do que o corporativismo oficial'', atacou o deputado Chico Alencar (PSol-RJ). ''Eles optaram por abrir mão de um direito institucional, que é o de cada Casa do Congresso investigar seus integrantes'', disse Alencar. ''Acharam que o sangue dos deputados é azul. Temos, então, sanguessugas de sangue azul.''
O procurador Antonio Fernando de Souza disse que provavelmente pedirá ao Supremo Tribunal Federal (STF) que instaure um inquérito para apurar as suspeitas de envolvimento de congressistas em irregularidades na compra de ambulâncias.
A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ellen Gracie Northfleet, mandou prender de novo todos os suspeitos de fraudar licitações para a compra de ambulâncias. Ela restabeleceu ontem todas as prisões decretadas pela 2 Vara Federal de Mato Grosso na Operação Sanguessuga da Polícia Federal (PF).
No fim da tarde, a Polícia Federal, numa investida rápida, já havia recapturado 12 das 44 pessoas presas na Operação Sanguessuga e libertadas anteontem à noite. A operação de começou por volta das 13 horas e os 12 recapturados estavam todos em Cuiabá (MT). A operação desmantelou uma quadrilha que desviava recursos da União mediante compra superfaturada de ambulâncias 44 para municípios com recursos de emendas apresentadas por parlamentares. Entre os que ainda não foram recapturados estão os ex-deputados Ronivon Santiago (RO) e Bispo Rodrigues (RJ).

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