O procurador da República em Cascavel Celso Antônio Três rechaçou ontem afirmações do chefe do Departamento de Câmbio do Banco Central, José Maria de Carvalho, de que o BC havia tomado a dianteira nas investigações sobre as contas CC-5. ‘‘O Banco Central sempre foi conivente com a lavagem porque tem controle diário sobre as contas movimentadas’’, disse o procurador, que depõe amanhã na CPI dos Bancos.
‘‘Só depois do início da CPI dos precatórios o BC passou a mandar informações, mas a essa altura os saldos das contas já estavam zerados’’. Ainda segundo Celso Três, o BC só se preocupou com as irregularidades das contas CC-5 ‘‘depois da porta arrombada, ou seja, quando não havia mais como recuperar o dinheiro’’.
Celso Três lembrou que, apenas em Cascavel, a Procuradoria move processo contra 40 pessoas físicas, entre elas muitos doleiros de outros Estados. Agora começam a aparecer pessoas jurídicas, informou, entre as quais uma factoring que, sozinha, mandou R$ 1 bilhão para o exterior desde 1996. O procurador investiga agora uma associação de funcionários de órgão financeiro federal (não quis identificá-la), que mandou aproximadamente R$ 28 milhões para o exterior.
O alvo maior, contudo, são mesmo os bancos, enfatizou. ‘‘Existem bancos, na verdade banquinhos por seu ativo, que mandaram para o exterior volumes de dinheiro desproporcional à sua capacidade’’, disse. Um caso, segundo Três, é o Banco Marka, de Salvatore Cacciola, ‘‘que nem é ranqueado no exterior e enviou para lá verdadeiras fortunas’’. ‘‘São todos ‘microsoros’ a ser descobertos’’, aludiu ao megaespeculador George Soros, para quem trabalhava o presidente do Banco Central, Armínio Fraga.
Em seu depoimento à CPI dos Bancos, marcado para às 10 horas, Três pretende revelar, conforme adiantou à Folha na semana passada, que as remessas de dinheiro ao exterior, em operações envolvendo as contas denominadas CC-5, chegam a R$ 111 bilhões, entre os anos de 92 e 96. A Comissão havia avaliado as remessas ao exterior por ‘‘laranjas’’ em ‘‘apenas’’ R$ 5 bilhões.
A cifra levantada por Três é a soma de ‘‘umas 50 mil remessas’’ feitas por pessoas físicas e jurídicas, que aparecerem em lista fornecida ao promotor federal pelo Banco Central, que, para obtê-la, precisou recorrer à Justiça Federal. O procurador de Cascavel - que trabalhou numa relação de 20 mil nomes - relatou que, dos R$ 111 bilhões, R$ 104,6 bilhões foram remetidos por pessoas jurídicas. Parte do valor é da ‘‘lavagem’’ de dinheiro de origem escusa, e envolve também sonegação fiscal. Além do relato à CPI, o procurador promete fazer críticas relacionadas à atuação de controladores do sistema financeiro nacional.

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