Agência O Globo
O procurador da República Celso Antônio Três, de Cascavel (PR), voltou a criticar duramente o Banco Central no depoimento que prestou ontem à CPI dos Bancos. Segundo o procurador, o BC é ‘‘omisso e conivente com as imensas irregularidades que existem na remessa de recursos para o exterior’’. ‘‘Na ótica monetarista do Banco Central, o dinheiro de traficantes e o de um banqueiro legalmente estabelecido no País são a mesma coisa. É tudo legítimo’’, disse o procurador. Três também entregou à CPI relação dos remetentes de dinheiro para as contas CC-5.
O procurador disse, no depoimento, que são realizadas muitas remessas irregulares de recursos ao exterior através de bancos paraguaios, além da passagem irregular de dinheiro através da fronteira entre os dois países, especialmente entre Foz do Iguaçu e Ciudad del Este. O procurador usou o termo ‘‘picaretagem paraguaia’’ para definir a remessa de recursos àquele país através das contas CC-5.
O senador Roberto Requião (PMDB-PR) também fez críticas ao país vizinho. ‘‘O novo governo paraguaio se comportou como uma quadrilha ao revogar decreto do ex-presidente Raúl Cubas que tentava diminuir a remessa ilegal de dinheiro do Brasil para o Paraguai’’, afirmou Requião.
Para Celso Três, bastaria apenas o Banco Central cumprir as normas previstas na lei que coíbe a lavagem de dinheiro, para evitar a remessa para o exterior de recursos de origem irregular através das contas CC-5. Segundo o procurador, além dessa lei existe outra legislação de 1965 que obriga o BC a informar ao Ministério Público sobre qualquer movimentação suspeita na remessa de recursos para o exterior.
O procurador da República denunciou que pelo menos mais da metade das remessas de recursos ao exterior, através das contas CC-5, são, na verdade, feitas através de ‘‘laranjas’’ e envolvem recursos de origem duvidosa. Ele afirmou que, entre 1992 e 1998, R$ 7,5 bilhões foram remetidos ao exterior por pessoas físicas, sendo que cerca de R$ 5 bilhões através de ‘‘laranjas’’. Muitas vezes esses recursos têm origem em ilícitos como corrupção, tráfico de drogas e sonegação fiscal, disse Três.
Já as pessoas jurídicas remeteram, no mesmo período, segundo o procurador, mais de R$ 100 bilhões. Ele revelou que, entre as remessas feitas por empresas, existem muitas inconsistências e indícios de irregularidades, como por exemplo o fato de uma pequena empresa de factoring remeter ao exterior mais de R$ 1 bilhão.
Celso Três fez ainda duras críticas ao Banco Central (BC), acusando a instituição de prevaricação e de má vontade com a Justiça e o Ministério Público quando solicitada a revelar dados sobre as remessas de recursos ao exterior.
Pouco antes do meio-dia, o procurador sugeriu aos membros da CPI dos Bancos que o final do seu depoimento transcorresse numa sessão reservada para que pudesse transmitir à comissão a relação de pessoas físicas e jurídicas que fizeram remessas de recursos ao exterior entre 1992 e 1998 através das contas CC-5. Segundo procurador, seria respeitado assim o sigilo bancário das pessoas e empresas envolvidas. Por volta das 12h30, o presidente da CPI, Bello Parga, (PFL-MA), transformou em reservado o depoimento do procurador paranaense.
Por volta das 14h20, terminou o depoimento de Celso Três. Durante três horas e meia, o procurador passou aos membros da CPI sua experiência na investigação da remessa de recursos via CC-5. Na última hora e meia de seu depoimento, o procurador entregou à CPI a relação de pessoas físicas e jurídicas que realizaram remessas de recursos através de CC-5 no período de 1992 a 1998. No total, a lista contempla quase R$ 111 bilhões. Entre as remessas estão R$ 600 milhões remetidos pelos bancos Marka e FonteCindam no período de 1996 a 1998.Celso Três depõe, mantém críticas ao sistema e entrega lista de quem remeteu o total de R$ 111 bilhões para contas secretas :
Foto de Lindauro Gomes/Agência EstadoGuarâniaCelso Três: ‘‘Picaretagem paraguaia’’ é um dos meios usados para encobrir remessas para o exterior

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