O procurador da República em Cascavel, Celso Antônio Três, será ouvido hoje a partir das 10 horas por senadores da CPI dos Bancos, aos quais relatará ações desenvolvidas pelo Ministério Público (MP) no Oeste paranaense, contra a ‘‘lavagem’’ de dinheiro, com sua remessa para o Exterior, através das contas CC-5. Ontem, antes de viajar a Brasília, Três disse à Folha que, além deste relato, apontará ‘‘falhas e omissões’’ do Banco Central (BC), na fiscalização sobre as remessas, ‘‘em grande número de casos com valores gigantescos, comparados à capacidade dos remetentes’’ - no caso de pessoas jurídicas, muitos ‘‘banquinhos’’, segundo sua definição.
O procurador, que desde 1997 investiga operações feitas através de casas de câmbio de Cascavel e Foz do Iguaçu, pelos ‘‘doleiros’’, e através de bancos paraguaios, salienta que o Banco Central tem ‘‘controle diário’’ sobre remessas feitas, ‘‘e não é possível que nunca tenha chamado atenção a desproporcionalidade entre o que alguns enviaram e seu ativo financeiro real’’. A própria Receita Federal deveria ter detectado esta situação, segundo Celso Três - que discorda de postura assumida pelo secretário da Receita, Everardo Maciel, no depoimento que este deu a CPI.
O promotor federal salienta que Maciel apontou a falta de leis para regular o setor, ‘‘o que não é verdade, pois leis existem, basta aplicá-las, e, se faltassem, a iniciativa delas deveria ser do Executivo, e o Congresso, como se sabe, aprovaria tudo, como sempre faz em relação ao que parte do governo’’. No caso do BC, aponta que só ‘‘saíram informações de lá, ainda assim parciais’’, sobre as contas CC-5, depois da CPI dos Precatórios. Mesmo assim, a relação completa das remessas de dinheiro feitas ao Exterior, de 1992 em diante, só foi fornecida pelo BC em abril, ‘‘após nós termos requerido isso a Justiça Federal’’.
Celso Três leva para a CPI a relação do BC, com ‘‘umas 50 mil remessas, grandes ou pequenas, e, obviamente, apenas parte delas ilegais’’ - sem origem conhecida do dinheiro, e sem sua tributação. Em todo o País, entre 92 e 96 passaram pelas contas CC-5 R$ 111 bilhões, dos quais R$ 104,6 bilhões remetidos por pessoas jurídicas e o restante por pessoas físicas.
A lista é mantida sob sigilo pelo MP, mas a Folha apurou que, além de ‘‘banquinhos’’, nela aparecem uma grande empresa de comunicações (R$ 500 milhões) e até uma fundação de funcionários de instituição financeira oficial (R$ 28 milhões), um ex-ocupante de cargo de primeiro escalão do setor financeiro, e um conhecido comentarista de televisão.
Celso Três foi convidado para depor na CPI dos Bancos pelo senador que a preside, Bello Braga (PFL/Maranhão), a partir de sugestão de senadores como Roberto Freire (PPS/Pernambuco) e o paranaense Roberto Requião (PMDB). O procurador notabilizou-se pelas investigações sobre a ‘‘lavagem’’ de dinheiro na fronteira com o Paraguai, tendo identificado inicialmente remessas de R$ 400 milhões.
Quarenta pessoas já respondem ação penal, e de dez delas a Procuradoria já conseguiu o sequestro de bens, por determinação da Justiça Federal. Muitas contas CC-5 foram abertas em nome de ‘‘laranjas’’, pessoas humildes que apenas ‘‘emprestaram’’ o nome e documentos, mediante pequena remuneração.

mockup