Pedro Ribeiro
FolhaO Brasil está preparado para a tecnologia da informação?
XavierA partir da privatização do Sistema Telebrás, o País deu um ‘‘tremendo’’ salto e está se colocando numa posição de destaque, com todas as oportunidades para recuperar o terreno perdido. A privatização do Sistema Telebrás evitou um colapso, que certamente aconteceria com a forte demanda reprimida que ainda temos.
Folha Quando, efetivamente, teve início esse avanço?
Xavier Começou no pré-Plano Real, quando o estágio das telecomunicações era degradado em função de vários anos de insuficiência de investimentos, falta de uma realidade tarifária e de gestão no setor. Com o plano, houve redistribuição de renda, aumentou o poder aquisitivo da população e demanda elevada de linha fixa à disposição dos brasileiros. Foram os primeiros e importantes passos.
FolhaQual foi o papel do governo para essa virada?
XavierUma nova filosofia de governo com propostas revolucionárias. Primeiro, que houve uma definição do nível de investimento, que triplicou. Depois, implantou-se uma realidade tarifária para que o setor desenvolvesse, reorganizando-o junto às tendências mundiais nos avanços tecnológicos.
FolhaO senhor falou em triplicar investimentos. Como, e quanto?
XavierO nível de investimentos no setor de telecomunicações era em torno de R$ 3 bilhões. Em 1997 pulou para R$ 7,5 bilhões. O valor da tarifa reduziu em termos reais nas faixas de interurbanos nacionais e internacionais, enquanto as tarifas básica mensal local e assinatura experimentaram um pequeno reajuste. A partir daí, houve um equilíbrio econômico aceitável.
FolhaO senhor tem falado em autofinanciamento. Pode explicar?
XavierUma das medidas importantes do governo foi colocar fim ao sistema de auto-financiamento, instrumento criado no início do sistema Telebrás com o propósito de gerar receitas para investimentos na construção do sistema no País. O candidato a uma linha telefônica se transformava em acionista, com aproximadamente US$ 1.000. Isso representava a elitização do sistema.
FolhaE como funciona hoje?
XavierHoje o candidato paga apenas uma taxa de instalação que representa apenas R$ 50,00. Com o fim do autofinanciamento, houve uma nova onda de usuários e está sendo estimulado no País uma verdadeira demanda por telefones, após a privatização do sistema.
FolhaComo funcionam os serviços com a privatização?
XavierSão serviços diferentes realizados por empresas diferentes. Com a cisão dos celulares, por exemplo, abriu-se em duas empresas - a do tradicional sistema e a da iniciativa privada - que passaram a remodelar a estrutura do sistema de telefonia móvel.
FolhaIsso representou a quebra do monopólio no setor?
XavierPerfeitamente. Com a entrada de novas empresas, aumentou-se a competitividade. Um novo cenário dentro de um regime de competição na iniciativa privada.
FolhaComo aconteceu, na prática?
Xavier - O primeiro passo foi a realização do leilão da Banda B da telefonia celular. No Paraná, a Telepar e a Global Telecom disputam o mercado, reestruturam o sistema e competem entre si. No celular, as licenças da Banda B foram leiloadas antes da privatização do Sistema Telebrás. No caso da telefonia fixa, houve o contrário.
FolhaO que significa ‘‘empresas-espelho’’?
XavierCom a privatização das empresas do Sistema Telebrás, entra agora no meio o processo de concessão de licenças para empresas concorrentes das telefonias fixas privatizadas, para competição no serviço. A partir de março estarão concluídos os processos de licença para empresas espelhos da Telesp fixa e Tele Centro Sul.
FolhaO que esse chamado avanço no setor de telecomunicações pode trazer de benefícios ao País?
XavierÉ bom lembrar que todo sistema produtivo de um país depende de serviços interurbanos e nacional. Com isso, forma-se a cadeia de preços e produtos, resultando na eficiência e competitividade. O Brasil está se preparando para esse momento de globalização.
FolhaA curto prazo, o que o Brasil pode esperar?
XavierO ano de 2000 será o ano que representará um cenário totalmente diverso do que o brasileiro sente hoje. Volto a insistir: o Brasil terá ganho de produtividade e eficiência para competir, participar com competência e eficácia da economia globalizada.
FolhaExistem muitas reclamações com o sistema de telefonia. Não seria o efeito do estatal para o privado?
XavierVolto atrás. Com os planos de autofinanciamento, o sistema ficou comprometido com o público. Com a crise asiática de 1997, o governo brasileiro foi obrigado a promover um ajuste orçamento no investimento do Sistema Telebrás. Com os cortes, não foram realizadas grandes obras. Em São Paulo, por exemplo, 30 dias após a privatização, havia uma média de 120 mil planos de expansão (autofinanciamento) vencendo a cada mês.
FolhaQual foi a saída?
XavierHouve um esforço da Telefônica que, em regime de urgência, instalou 100 mil linhas em novembro, 120 mil em dezembro e 150 mil em janeiro, atingindo capacidade de produção. A Telesp nunca consegiu instalar mais do que 50 mil linhas por mês.
FolhaAinda há críticas em São Paulo. Qual a estratégia para solucionar o problema, e qual a demanda?
XavierNós vamos instalar 2 milhões de linhas fixas em São Paulo este ano, o que representa um recorde. A lista de espera em São Paulo é de 6 milhões de pessoas. A partir de abril a situação da qualidade do serviço estará superada e o grau de demanda terá evoluído significativamente de um modo que seria impensável poder acontecer sob a gestão estatal.
FolhaComo é feito o controle do sistema de telefonia privatizado?
XavierA Anatel, empresa do governo, é a vigia do sistema. Analisa os contratos e as metas cumpridas. Nós, da Telefônica, acreditamos no País, não vamos mudar nossos planos de investimentos e muito menos os compromissos de privatização.
FolhaO senhor foi alvo de críticas no foco das privatizações, por responder pela presidência da Telebrás e passar para o grupo espanhol Telefônica. Como o senhor absorveu?
Xavier




PERFILde telefonia fixa e parte celular (Telesp) em São Paulo, no Rio Grande do Sul (fixa e celular), no Rio de Janeiro (Telerj-Celular), Espírito Santo (Telest-Celular) e detém a gestão administrativa e de produção da Telebahia (celular) e Telesergipe (celular). Na Estância do Lago, Região Metropolitana de Curitiba, onde parou para descansar por uma semana e comemorou seus 50 anos, Xavier Ferreira concedeu entrevista à Folha. Traçou um perfil do sistema de telecomunicações, falou sobre privatizações - que ‘‘evitaram um colapso no sistema’’ - de investimentos e de sua permanência na Telesp, após a privatização, quando teria sido mal interpretado e acusado de fornecer ‘‘informações privilegiadas’’. Elogiou algumas ações do governo Fernando Henrique Cardoso, em especial do ex-ministro das Comunicações Sérgio Motta.


Privatização recupera tempo perdido
Presidente da Telefônica Brasil diz que a venda das companhias de telecomunicações evitou um colapso no sistemaNo Brasil, muito se fala, preponderantemente, em investimentos associados à comunicação de voz. Em um cenário futuro da tecnologia de informação - coisa em torno de 10 anos - a previsão de cientistas é de que apenas 15% do tráfego do volume de informação estará voltado à voz. Dados e imagens (Internet) comandarão a comunicação global. Enquanto essa realidade virtual não acontece efetivamente no Brasil, o País acaba dando um grande salto, com a privatização do sistema de telecomunicações, se colocando em condições de recuperar, rapidamente, o terreno perdido e se preparar para o futuro da tecnologia de informação. Quem vive hoje e visualiza esse cenário no futuro é o engenheiro de telecomunicações Fernando Xavier Ferreira, presidente do Grupo Telefônica (capital espanhol) que administra os sistemas

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