Principais trechos do depoimento
PRINCIPAIS TRECHOS DO DEPOIMENTO
Histórico
As dificuldades que o Bamerindus enfrentou tiveram seu início com a minha participação no governo, como ministro do presidente Itamar Franco. Quando assumi o Ministério da Indústria e do Comércio passei a ser uma das pessoas que presidente consultava sobre os assuntos econômicos do País.
Antes mesmo de eu ser eleito senador pelo Paraná, em 1989, o Bamerindus foi usado em fraude cambial contra o País, o que de imediato levei ao conhecimento do ministro da Fazenda e do presidente do Banco Central. Estranhei a não adoação de efetivas e imediatas medidas a respeito deste assunto. O Banco Central, mesmo após uma CPI na Câmara dos Deputados, de culpado passou a acusador, instaurando um processo administrativo contra o Bamerindus, o denunciante.
As vantagens auferidas na aquisição de dólares, pelo valor oficial, e sua troca no mercado paralelo, chegaram a mais de 30% de seu valor. Como ministro, não aceitava a prática dos estratosféricos juros internos, entendia-os como um absurdo para nosso povo e nossas empresas.
À época era um verdadeiro achaque.
O Plano Real
Com a implantação do Plano Real, pelo presidente Itamar Franco, plano este desenvolvido pela equipe do Ministério da Fazenda, ocupado pelo atual presidente Fernando Henrique, os bancos tiveram uma queda significativa de suas receitas, pois os juros bancários finalmente sofreram alguma redução.
A alternativa para os bancos passou a ser um implemento de imediato na atividade produtiva do País, ou seja, a realização de empréstimos bancários a todos segmentos da economia.
Ocorreu nesse momento uma oferta muito grande de dinheiro para a realização dos empréstimos bancários.
Acreditando no sucesso apresentado no primeiro momento do Plano Real, também existiam tomadores para esses valores em todos segmentos da economia. O Bamerindus, cumprindo sua missão, também realizou uma série infindável de empréstimos bancários, tendo ainda dificuldades para recebimento desses valores. Nossos mutuários não conseguiam pagar suas contas.
Muitos negócios foram realizados em valores superiores aos valores reais e o plano começou a apresentar problemas como todos sabemos.
A consequência foi a apresentação de um grande volume de créditos em liquidação.
Nesse momento os bancos estavam tranquilos, pois o governo, que acabou tendo um incremento significativo em suas receitas de impostos e tributos, deveria honrar os compromissos assumidos anteriormente com os bancos, e pagar a estes o que lhes era devido.
Nova surpresa, o governo não honrou seus compromissos, e aqueles que acreditaram no País acabaram sofrendo novas dificuldades.
Como exemplo, os créditos que o Bamerindus possuía de FCVS, créditos idênticos aos nossos, foram adquiridos pelo Banco Central, com vantagens financeiras a alguns bancos concorrentes, levando-se em conta os aspectos tributários.
Essa postura do governo acabou criando ainda mais dificuldades aos bancos que não comercializaram seus créditos, e não somente aos que tiveram seus problemas expostos ao público.
A Inpacel
Iniciamos a construção da Inpacel contando exclusivamente com recursos próprios, mas em certo momento, como toda empresa de grande porte necessitamos de recursos financeiros, e fomos ao BNDES.
Em um primeiro momento, o atendimento foi normal.
Mas o setor papeleiro veio a necessitar de novos recursos, que aportamos, e uma negociação com os credores. Em nosso caso, com o BNDES.
As indústrias que se encontravam em construção no País, eram três - Inpacel, Piza e Bahia Sul. O BNDES de pronto refinanciou as duas últimas, mas negou o mesmo financiamento, com as mesmas garantias, à Inpacel.
No início, não havia IPI sobre bens e capitais, mas no decorrer da construção foi instituído novamente, acarretando o desembolso extra de mais de U$ 100 milhões no período.
O BNDES nunca admitiu o expurgo da inflação dos planos econômicos, aplicando sempre a correção integral.
Com essas dificuldades, os financiamentos começaram a vencer antes do início das atividades industriais.
O vazamento de informações
Vivíamos uma situação única no mercado, pois semanalmente eram transmitidas a jornalistas (da Gazeta Mercantil e do Jornal do Brasil) informações sobre as condições do Bamerindus, o que não poderia jamais ocorrer.
Mesmo preservando suas fontes, quando abordados informavam que não poderiam subestimar ou menosprezar as suas fontes, pois estas eram de dentro do Banco Central, pessoas de influência, ocupando funções relevantes.
A omissão e suas consequências
O ministro Pedro Malan e o presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, nunca desmentiram essas informações inverídicas.
A omissão declarada das autoridades da área contribuiu e muito para aumentar as dificuldades do Bamerindus.
Os correntistas promoveram a retirada dos recursos, ocasionando o desequilíbrio de caixa. Saímos de uma posição de doadores ao mercado de R$ 4 bilhões para tomadores de R$ 3 bilhões ao dia.
O Bamerindus
Tinha tudo para permanecer viável.
Tradição, lucratividade, credibilidade, boa rede de captação e de aplicação de recursos em todo o País, com taxas favoráveis e imobilizado baixo.
Funcionários participantes de uma carreira fechada. Todos vestiam a camisa da empresa.
E principalmente por possuir um quadro de mais de 50.000 acionistas, que nunca foram especuladores, mas sim aplicadores permanentes em ações do Grupo, muitos dos quais aplicando em ações há mais de 25 anos, com pouca movimentação em Bolsa de Valores, muitos, mensalmente, adquirindo suas ações até o final do Banco.
Soluções
De modo altamente estranho, o Sr. Pedro Malan e o Sr. Gustavo Loyola não aceitaram nenhuma alternativa que pudesse resolver de modo definitivo a situação do Bamerindus.
Muitas foram as hipóteses e soluções levantadas, inclusive minha saída do grupo, mas nada foi aceito.
Efetuamos a capitalização do banco em R$ 680 milhões, transferindo-lhe o controle da Seguradora Bamerindus em meados de 1996. De nada adiantou. Éramos oposição, éramos empecilho para as manobras ali feitas.
HSBC - Informações
Em 1995, fomos procurados por representantes do HSBC para uma associação de interesses, com a qual passariam a ser nossos correspondentes em todo o mundo, o que aceitamos.
O Midland, na verdade HSBC, efetuou a aquisição de um pouco mais de 6% (seis por cento) das ações do Banco Bamerindus.
Após a efetivação dessa participação minoritária, aceitamos que eles indicassem um membro para o Conselho de Administração do Banco.
O Sr. Peter Negus, indicado pelo HSBC, passou a deter as informações privilegiadas que solicitava aos órgãos de contabilidade e controle do Banco.
HSBC - Negociações
Procuramos o HSBC para verificar o interesse no Bamerindus, até mesmo para transferência do controle societário. Mas após demonstrar efetivo interesse, os Srs. Michael Geoghegan e Frank Lawson foram ao Banco Central, e de modo totalmente estranho, em seguida, informaram que não tinham mais qualquer interesse no Banco.
Entendo agora o porquê de eles terem, de imediato, lançado em prejuízo o investimento realizado em ações do Bamerindus, e virem a público trazer essa informação, causando-nos o tiro de misericórdia, assim como o Banco Central, com sua anuência e displicência, deu um grande presente a esses ingleses. Deu, evidentemente, em troca não se sabe do quê.
O Banco Central
Nos últimos meses, equipe altamente profissional e preparada tecnicamente, do Banco Central, mantinha-se dentro do Bamerindus, com acesso a todas as informações. Nada, absolutamente nada, lhes foi omitido e nada foi encontrado de irregularidade.
Quando o Bamerindus precisou tomar recursos de terceiros, a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e o próprio Banco Central contribuíram, sempre por um dia, somente, cobrando juros penalizantes, o que nos custou um valor estimado em R$ 1 bilhão no último ano do banco, mas, de forma estranha, não aceitaram entre outros, o recebimento do FCVS, dos títulos hipotecários, ou nossa carteira imobiliária, uma das melhores entre os bancos brasileiros, como pagamento destes créditos.
Após a intervenção, a Caixa Econômica Federal recebeu em pagamento do empréstimo a carteira imobiliária, de imediato.
Qual ou quais motivos dessa mudança de posição?
O valor do Bamerindus
Quanto pode valer um banco com mais de 1.200 agências em todos os Estados brasileiros?
Uma estrutura de informática ajustada para as necessidades do ano 2000?
Uma rede com mais de 150 agências em São Paulo, capital, o maior centro financeiro do País?
Um banco que no ranking ocupava o 3º lugar entre todos os bancos privados nacionais?
Dono da 4ª maior empresa de seguros do País?
O que foi pago pelas agências do Banerj, Meridional, Noroeste e Real é um valor infinitamente maior do que aquele pelo qual o Banco Central vendeu, esclarecendo, doou a parte boa para os ingleses do HSBC.
Cobraram do HSBC R$ 381 milhões de ágio, pelo fundo de comércio, a ser pago após decorridos sete anos, com atualização pelos índices da poupança. Mas deram por nossa conta uma fábula de R$ 375 milhões à vista.
Aceitaram pagar por um passivo trabalhista, fiscal e até mesmo comercial, que a Justiça entende ser de responsabilidade do HSBC, como efetivo sucessor de Bamerindus, o que realmente o é, mas, novamente, várias centenas de milhões de reais foram embora.
Qual a razão de a parte ruim do Bamerindus vir a comprar, de imediato, após a intervenção, títulos emitidos pelo Brasil, os denominados C-Bonds, para que os ingleses aportassem capital em nosso país?
Isso representou mais de R$ 1 bilhão.
Concederam vantagens extras aos HSBC, absurdas e inaceitáveis, principalmente no que se refere às exigibilidades do depósito compulsório sobre os depósitos de poupança, liberados de aplicação no mercado imobiliário, que representam mais alguns bilhões de reais.
Senhores: o Bamerindus foi um presente ao HSBC e um confisco da poupança de dezenas de milhares de acionistas nacionais em favor do capital estrangeiro.
Como poderiam os ingleses virem para o País, e sem autorização desta casa, montar um banco?
Eles fizeram isso em 30 dias, antes da intervenção, montando uma empresa de gaveta, com o aval e bençãos do Banco Central.
A revista Veja, em agosto de 1996, anunciou o nome do funcionário do Banco Central, Paulo Roberto Simões da Cunha, como o futuro interventor em Bamerindus, e o que é pior, ele reconheceu sua indicação.
Que instituição financeira no mundo pode aguentar isso?
O Banco Bamerindus do Brasil, fundado por Avelino Vieira, meu pai, aguentou.
No dia da intervenção, imaginem quem comandava o pelotão de choque do Banco Central?
Exatamente o Sr. Paulo, aquele que havia sido indicado havia mais de seis meses, não na condição de interventor, para que as luzes não recaíssem sobre ele e a verdade viesse a público.
Soubemos, após a intervenção, que montaram em um hotel em Curitiba, 30 dias antes, verdadeira parafernália telefônica para comunicação com Londres. A aprovação governamental já havia sido concedida.
O Bamerindus já havia sido presenteado aos ingleses.
O Bamerindus sempre foi grande e forte. O Bamerindus, a parte ruim, nada deve ao Proer, como nesta casa e nesta Comissão foi declarado pelo atual presidente do Banco Central, sr. Armínio Fraga Neto.
Perguntamos então: quais eram as dificuldades instransponíveis do Bamerindus, que vieram a justificar sua intervenção e liquidação?
Somente posso aceitar que os interesses foram outros.
Alguns, em razão das posições que sempre adotei, como a necessária e vital redução dos juros internos. Outros cabem a esta Comissão apurar, e esta Comissão vai encontrar, seguramente, um ninho de mazelas e interesses escusos que não condizem com o povo brasileiro.
O relatório da Comissão de Inquérito do Banco Central não encontrou nenhuma fraude, pois reitero que funcionários íntegros foram designados para sua elaboração.
E, reitero mais, os valores alocados do Proer já foram totalmente devolvidos.
No entanto, continuamos a ver nossos acionistas, aquelas pessoas simples que durante toda a vida acumularam suas poucas economias em ações, como poupança, até o presente momento, sem nada a receber.
O Banco Central nada perdeu, os depositantes e investidores, que na verdade representam a economia popular, também não.
Nós, administradores, sim; nossos parceiros acionistas, também.
Os brasileiros perderam uma empresa brasileira que empregava mais de 20.000 pessoas de modo direto, que sempre recolheu corretamente seus impostos, que estava presente em mais de 800 cidades, ajudando no desenvolvimento local, regional e nacional.
Não acredito que nas atuais condições de mercado qualquer instituição financeira nova venha a possuir mais de 1.200 agências e a empregar mais de 20.000 pessoas.
Cabe agora aos senhores, membros desta Casa, apurar de modo efetivo o que está de fato por trás de tudo isso, como estes corsários ingleses vieram parar aqui, e pagando, se é que pagaram, tão pouco, recebendo de presente uma instituição que representava tanto, a todos nós, brasileiros, que aqui nascemos, vivemos, trabalhamos, investimos, e acima de tudo, acreditamos.
Confio nos levantamentos que os senhores realizarão, pois fui membro durante oito anos desta Casa, onde sempre imperou a permanente busca da verdade, a apuração da realidade de todos os fatos aqui trazidos e trabalhados.





