Primeira audiência da Voldemort será nesta quarta
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segunda-feira, 16 de novembro de 2015
Loriane Comeli<br>Reportagem Local 
Nesta quarta-feira, a partir das 13h30, o juiz da 3ª Vara Criminal de Londrina, Juliano Nanuncio, começa a ouvir testemunhas arroladas pelo Ministério Público (MP) no processo em que o empresário Luiz Abi Antoun, parente distante do governador Beto Richa (PSDB), é acusado de liderar organização criminosa que fraudou a contratação de sua própria empresa porém registrada em nome de um "laranja" para prestar serviços ao governo do Estado.
Trata-se da Providence Autocenter, oficina mecânica com endereço em Cambé, que está em nome do mecânico Ismar Ieger e de seu pai. A contratação emergencial ocorreu no final do ano passado por R$ 1,5 milhão. O objeto do contrato, com duração de 180 dias, era a prestação de serviços de manutenção dos veículos oficiais do Estado, como viaturas policiais.
A Providence foi contratada em dezembro de 2014 e o trâmite do processo de dispensa de licitação se deu no Departamento de Transporte Oficial do Estado (Deto), órgão da Secretaria Estadual de Administração e Previdência, onde era diretor outro réu do processo, Ernani Delicato, cuja ação teria sido decisiva para fraudar a contratação.
Um dos indícios de que houve fraude é que os orçamentos que justificaram a escolha da oficina de Abi teriam sido forjados pelos próprios réus. Os empresários cujas propostas de preços constam do processo de dispensa de licitação confirmaram em depoimento ao MP que apenas assinaram os orçamentos.
Segundo a denúncia, os outros réus também sabiam e agiram para garantir a fraude. O advogado José Carlos Lucca teria prestado assessoria para dar ar de legalidade à fraude, especialmente aos orçamentos simulados. O empresário Paulo Roberto Midauar, dono de uma distribuidora de combustíveis em Bandeirantes (Norte Pioneiro), seria a "ponte" entre Delicato e Ieger. Outro réu é Roberto Tsuneda, sócio oculto na Providence e em outra empresa de Abi. O sétimo acusado é o policial militar Ricardo Baptista da Silva, que teria colhido assinaturas de dois proprietários de oficina mecânica em orçamentos da licitação.
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) começou a investigar a fraude ainda no ano passado, mas a Operação Voldemort somente foi deflagrada em 16 de março, quando todos os acusados foram presos. Porém, em 23 de março, o juiz substituto em segundo grau, Márcio José Tokars, da 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça (TJ) do Paraná, concedeu liminar a Abi e aos demais indiciados.
O nome da operação é uma referência ao bruxo das trevas da série Harry Potter. Não se podia dizer o nome de Voldemort assim como era difícil ligar Abi à fraude, que agia nas sombras justamente em razão da proximidade com Beto: até ser preso, tinha livre trânsito no Palácio do Iguaçu e era tido como uma espécie de conselheiro do governador.
Abi também é réu na Operação Publicano, que apura um esquema de corrupção e sonegação fiscal na Receita Estadual em Londrina. O parente distante de Beto exercia bastante influência na Receita e, segundo o principal delator do esquema, Luiz Antonio de Souza, teria exigido que auditores arrecadassem propina de empresários para a campanha de reeleição do governador. O PSDB nega qualquer irregularidade na campanha de Beto.
Os réus, em entrevistas anteriores e no processo, negam qualquer participação nos crimes. A defesa de Ieger sustenta que ele é sim o verdadeiro proprietário da Providence; a de Lucca garante que o advogado apenas atuou profissionalmente; o advogado de Midauar diz que seu cliente pode até ter auxiliado a preparar a documentação porque tem experiência em administração, mas não agiu ilicitamente;
As defesas de Tsuneda, Delicato, Abi e do PM também negaram participação delituosa de seus clientes. Os réus também alegaram, no processo, que não houve crime porque mesmo que tenha havido alguma irregularidade na contratação, o governo do Estado não chegou a fazer nenhum pagamento para a Providence. Nanuncio rejeitou esta tese e todas as outras questões levantadas nas defesas, como pedidos de absolvição sumária, ausência de crime, cerceamento de defesa e nulidade das interceptações telefônicas.
Uma decisão liminar do Órgão Especial do TJ do começo de agosto chegou a determinar a suspensão do processo porque desembargadores acataram argumentos da defesa de Abi de que a investigação deveria tramitar em segunda instância judicial em razão do foro privilegiado de uma das suspeitas, a secretária de Administração, Dinorah Botto Portugal Nogara. No entanto, tal posição foi revista principalmente porque a investigação contra Dinorah foi arquivada pelo MP.


