PRESSÃO POPULAR - Organizações articulam marchas para 2005
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domingo, 28 de novembro de 2004
Roldão Arruda<br>Agência Estado 
São Paulo- A Conferência Nacional da Terra e da Água, realizada na semana passada em Brasília e marcada por ácidos discursos e manifestações de protesto contra a política econômica do governo, foi o ensaio. A partir dela e sob a coordenação do Movimento dos Trabalhadores Rurais dos Sem-Terra (MST), diferentes organizações populares articulam para o início do ano que vem uma série de protestos destinados a pressionar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva para que mude a rota da economia. Uma das ações em estudo, segundo Gilmar Mauro, da coordenação nacional do MST, é a realização de grandes marchas pelo País - a exemplo das que foram realizadas para protestar contra a política do governo de Fernando Henrique Cardoso.
A conferência ajudou a aproximar e organizar os movimentos, segundo um de seus organizadores, o secretário do Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo, Gilberto Portes. ''O próximo ano será um ano de luta de massa'', anunciou ele ao fim do encontro.
Depois do excesso de expectativas, já se percebe o desencanto generalizado desses movimentos com o governo. O grupo de 180 índios que participou da conferência redigiu um manifesto, prontamente divulgado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que a certa altura diz: ''Lamentavelmente o governo de Lula priorizou nestes dois anos as relações com os setores oligárquicos dos Estados, com os políticos conservadores e as elites do campo, das cidades e do sistema financeiro.''
Está acertado que a política econômica estará no centro dos protestos. O que falta definir é até onde vão. Para o MST devem ser atacados apenas os setores conservadores do governo (leia-se a presidência do Banco Central e os Ministérios da Fazenda e da Agricultura). Os sem-terra querem poupar a figura de Lula e evitar ser responsabilizados por qualquer tipo de fracasso dele. Segundo Gilmar Mauro, não se deve estimular palavras de ordem do tipo ''fora Lula''.
No espectro dos atores políticos que tentam articular os protestos, o MST está no centro. À sua direita ficariam a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), que também fazem restrições à política econômica, mas não demonstram interesse em confrontos com o governo. À esquerda estariam algumas organizações mais radicais, sob a influência do PSTU, e setores da chamada ala progressista da Igreja Católica.
É uma situação complicada para o MST. Lula foi aliado da organização desde que ela surgiu, há 20 anos. Em dois anos à frente do governo ele ainda não deu nenhuma demonstração de que pretende realizar assentamentos em escala massiva, como pretendem os líderes dos sem-terra, como João Pedro Stédile e Gilmar Mauro. Mas por outro lado tem procurado atender a outras reivindicações deles, como a melhoria dos assentamentos já existentes e a melhoria nas condições de crédito para os pequenos agricultores.
Em nenhum outro governo o MST pode circular tão tranquilamente pelas dependências do Incra e o Ministério do Desenvolvimento Agrário como neste governo. Lula também reabriu as torneiras de recursos para as entidades ligadas ao movimento.


