São Luis - Pelo menos 70% dos presos suspeitos de desviar dinheiro público da União por meio de fraudes em licitações no Maranhão aceitaram a delação premiada, benefício pelo qual indiciados ou acusados podem reduzir eventuais penas se ajudarem na elucidação de crimes.
''Ninguém foi condenado ainda, mas os indícios são muito fortes. Se aceitaram o benefício da delação premiada é porque, certamente, têm muito a dizer'', afirmou o superintendente da Polícia Federal no Maranhão, Gustavo Gominho. Ontem à tarde, mais sete suspeitos foram presos. No total, até as 20 horas de ontem, havia 86 detidos em São Luís - sendo oito prefeitos -, 17 em Teresina (PI) e um em Parnaíba (PI). Dos 104 presos até o momento na Operação Rapina, 73 concordaram com a delação premiada.
De acordo com investigação da PF e da CGU (Controladoria Geral da União), os suspeitos são gestores públicos, contadores, empresários e técnicos do Tribunal de Contas do Maranhão. A estimativa é que tenham desviado cerca de R$ 1 bilhão dos cofres públicos nos últimos dez anos.
Parte das verbas supostamente desviadas por nove prefeitos do Maranhão bancou campanhas, de acordo com gravações autorizadas pela Justiça e com cruzamentos de dados entre a PF e a CGU. Um dos casos que evidenciam a irregularidade envolve um prefeito e um candidato a deputado estadual nas eleições de 2006, cujos nomes a PF não revelou. Em uma das gravações, o prefeito - que teria desviado verba da saúde para a campanha - combina com o candidato uma justificativa para burlar a fiscalização.
Além de documentos, lanchas, armas e carros de luxo, policiais apreenderam cerca de US$ 20 mil em dinheiro (aproximadamente R$ 37,5 mil) e mais R$ 138 mil. Na casa de um dos três servidores do Tribunal de Contas do Maranhão detidos, houve apreensão de R$ 70 mil em dinheiro - o salário bruto do funcionário é de R$ 5 mil. A PF não divulga o nome do suspeito porque o inquérito corre em segredo de Justiça.
O prefeito de Araioses, José Cardoso do Nascimento (PSC), 82, foi detido junto com a mulher e a filha anteontem. Ainda na cidade, a PF disse ter encontrado na casa da presidente da comissão de licitação da prefeitura, Vilenice Carvalho da Costa, R$ 63,2 mil em dinheiro, em cédulas dentro de uma garrafa plástica de refrigerante.
Para justificar os desvios, segundo a PF, os prefeitos inventavam projetos e firmavam convênios com a União para a execução das obras. ''Quando os recursos chegavam ao caixa, os prefeitos sacavam tudo e depois investiam em patrimônio, comprando apartamentos, carros e lanchas.''
Empresas fantasmas e outras que funcionam legalmente emitiam notas fiscais para comprovar as despesas. ''Tem empresa legal, registrada, que apenas vendia a nota fiscal em troca de comissão. O resto era embolsado pelos prefeitos'', afirmou Gominho.

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