Presidente reza no altar papal
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 1997
Agência Estado De Roma 
O encontro com o papa João Paulo II impressionou o presidente Fernando Henrique Cardoso, na primeira visita de Estado de um presidente brasileiro à Santa Sé em 171 anos de relações diplomáticas. Fiquei muito impressionado pela maneira direta como foi possível conversar com o papa, disse o presidente. Eles discutiram assuntos sociais, políticos e econômicos.
O sociólogo Fernando Henrique comportou-se como o representante do maior país católico do mundo, que lhe valeu o privilégio de ter uma conversa a sós com João Paulo II ontem, durante 45 minutos. Ao lado do papa, Fernando Henrique fez o sinal da cruz e, momentos depois, em visita à Basílica de São Pedro, ajoelhou-se para rezar na Capela do Santíssimo e no altar papal.
Mais tarde, quando a imprensa perguntou se era ateu, o presidente respondeu: Quando se quer criar um caso, que não existe, é que se pergunta isto; eu tenho formação católica e conheço a Igreja mais do que a média dos brasileiros.
Fernando Henrique disse que a conversa reservada com João Paulo II foi estimulante. Gostei muito, afirmou. Os dois conversaram em português e, segundo o presidente, muitas vezes ele achava que não estava sendo suficientemente claro e mudava de língua, mas o papa voltava ao português.
Ele tem uma visão muito objetiva das coisas sobre o Brasil, tem acompanhado, disse Fernando Henrique. Sobretudo, tem uma noção, que me parece indispensável, do processo, que as coisas não mudam de um momento para o outro, é preciso ver o rumo. Os dois discutiram problemas sociais, econômicos e políticos.
Conversamos também sobre os vários cardeais no Brasil e contei das relações que mantenho com alguns deles por muitos anos, contou o presidente, que perguntou ao papa por que só há cinco cardeais no Brasil, apesar de tantos bispos. Ele não me respondeu, disse o presidente, rindo.
Foi uma conversa de dois chefes de Estado, não tem nada de particular, são questões relevantes. O papa afirmou ao presidente que não há problema entre o Estado e a Igreja e os dois falaram das questões da terra e indígena.
Uma gravura do padre José de Anchieta, o primeiro livreto da ópera O Guarani, de Carlos Gomes, e quatro CDs foram os presentes de Fernando Henrique para o papa. Ao ouvir as descrições do presidente, o papa comentou: A língua guarani. O presidente então explicou que era uma ópera, a história de dois índios guaranis. Ao falar sobre a gravura, o presidente esqueceu como era em italiano. Consultou o chefe de cerimonial e continou: Engravato. Gravura, em italiano, é incisione.
João Paulo II ofereceu a FHC uma gravura em bronze de São Pedro e São Paulo, de Enrico Manfredi. Um pouco antes da troca de presentes, a leitura dos dois discursos oficiais mostrou a fragilidade da saúde do papa, que cancelou audiências há duas semanas por causa de uma laringite. A última visita de Chefe de Estado ao Vaticano foi no início do ano passado, do presidente francês Jacques Chirac.
No discurso, o papa destacou o desenvolvimento de todos os setores no Brasil. A referência à questão da terra não foi lida por João Paulo II, que pulou alguns trechos do discurso por causa da dificuldade com a leitura. O papa disse que para a consecução de um progresso que seja verdadeiramente integral é necessário dedicar atenção à cultura e à educação nos autênticos valores morais e do espírito.
O Sumo Pontífice enfatizou o esforço da Igreja em defender a vida, desde a concepção até o seu fim natural. Por isto, ante a introdução de legislações radicalmente injustas como o aborto e a eutanásia, ela permanecerá sempre fiel e firme defensora daqueles cidadãos moralmente retos.
Fernando Henrique fez um discurso mais curto, de duas páginas, no qual destacou a atuação de líderes religiosos, fiéis aos princípios morais, de solidariedade e de defesa na dignidade humana, que se destacaram como símbolos na luta pela restauração pela democracia. O presidente afirmou ainda que existem obstáculos no País, mas podemos registrar, com satisfação, que as iniciativas do governo no campo sócio-econômico contam com o apoio da sociedade e apresentam resultados significativos.


